A especialista em psicoterapia cognitivo-comportamental Margarida Gaspar de Matos considera que Portugal assiste a um «desolador» processo de recessão em saúde infantojuvenil, embora reconheça que esta informação «demora um pouco até chegar aos documentos e às estatísticas».

A propósito da conferência que irá realizar no dia 20, no Centro de Investigação do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), sobre «Prioridades para a investigação pediátrica na Europa», Margarida Gaspar de Matos lembrou que «a saúde da criança e do adolescente melhorou muito nos últimos anos em Portugal».

Estes elementos estarão disponíveis no relatório do projeto RICHE, que visa identificar as lacunas na investigação europeia da saúde infantil e o qual é coordenado em Portugal por Margarida Gaspar de Matos.

«Até à data do fim deste projeto os resultados da recessão ainda não se sentiam muito nos documentos e nos números publicados», disse.

No entanto, a especialista sublinha que «esse desolador processo da recessão em saúde infantojuvenil já se vê bem no dia-a-dia dos profissionais de saúde, mas demora um pouco até chegar aos documentos e às estatísticas».

Para Margarida Gaspar de Matos, «a precariedade tem influência na saúde de todos, por várias vias: pela dificuldade de acesso aos cuidados de saúde, pelo aumento das deficiências na sua prestação, mas sobretudo porque as pessoas - muitíssimo preocupadas com a sua sobrevivência em aspetos básicos do dia-a-dia - tendem a relegar a sua saúde e a dos seus para um plano menos saliente».

«Por isso se fala de saúde nos países desenvolvidos e saúde nos países em desenvolvimento, e nós estamos em recessão», sublinhou.

Também Álvaro de Carvalho, coordenador nacional para a saúde mental, disse à Lusa que tem recebido informações de profissionais que trabalham nas urgências pediátricas e nos serviços de pedopsiquiatria que apontam para «um aumento dos casos extremos».

Trata-se de «crises emocionais» detetadas em crianças e jovens e que «evidenciam maus tratos físicos e emocionais», com a crise a estar na origem destas situações, disse.

Nos adultos, a crise reflete-se na não comparência nas consultas e tratamentos, muitas vezes por falta de dinheiro para os transportes até às unidades de saúde, bem como o medo de ausência no trabalho.

O psiquiatra lembrou que em momentos de crise como a que Portugal atravessa, as respostas devem passar pelo reforço dos muitos médicos de proximidade, incluindo na área da psiquiatria, dos apoios sociais e a promoção de programas ativos para o mercado de trabalho.

Recentemente, o presidente da Comissão da Saúde da Mulher, Criança e Adolescente alertou para o aumento de casos de angústia e depressão infantil, devido às dificuldades das famílias, e disse que Portugal se arrisca a ser um «país de crianças tristes».

Em declarações à Lusa, Bilhota Xavier disse que as carências das famílias demonstram-se de várias maneiras e refletem-se nas crianças desde muito cedo.

«Ficamos perplexos com as faixas etárias das crianças em que se detetam os cada vez mais frequentes problemas de ansiedade, angústias e depressões, algumas com oito, nove, dez anos», disse o pediatra.