Por: Hugo Beleza | 21- 10- 2009 14: 27
José Saramago não estava à espera da polémica que se gerou depois de ter dito que a Bíblia é um «manual de maus costumes»
na apresentação do seu último livro. Pelo menos foi o que garantiu o escritor esta quarta-feira numa conferência de imprensa
em que disse que se ainda «ardessem fogueiras» da inquisição provavelmente não teria tido coragem para escrever «Caim». Mesmo
recusando andar «atrás da polémica», Saramago criticou «a intolerância das religiões organizadas» e deixou escapar: «O Deus
da Bíblia não é de fiar».
«Livro de Saramago é uma sátira»
«Tinha noção que iria agitar as águas, o que não esperava era
que a Igreja, ainda com o livro a sair do forno, já estivesse a pronunciar-se», disse o único escritor de língua portuguesa
distinguido com o Prémio Nobel, considerando estranho que «Caim» seja um livro «tão falado sem ter sido lido». Ironia, ou
não, Saramago frisou que esperava ainda menos a contestação por parte dos católicos, «porque eles não lêem a Bíblia».
«Há
qualquer coisa de estranho neste país, as pessoas parecem que se movem por impulsos», soltou o escritor, prolongando depois
a reflexão para um elogio à polémica: «Mostra uma coisa, Portugal ainda é capaz de se mexer, de protestar». Apesar disso,
anotou que no país vizinho, provavelmente, a troca de acusações não aconteceria. «A liberdade de expressão em Espanha funciona
melhor do que aqui».
«Aqui não se toca»
Mas se do protesto Saramago não se queixou, não quis deixar
de discutir o que considerou ser a razão mais profunda daquele de que é alvo. «A intolerância das religiões organizadas, institucionalizadas,
é patente. São órgãos de poder, organismos de poder, do qual não querem abdicar».
«Eles põe as coisas desta maneira:
aqui não se toca», disse Saramago, recusando temas intocáveis e exclusividade de territórios, mesmo se literários. «Ai de
nós se formos ver o que está do outro lado», referiu-se assim à forma como acha que a Igreja trata quem arrisca tratar os
temas bíblicos de forma menos convencional. Às acusações de ingenuidade e de ignorância, Saramago respondeu: «Li a Bíblia,
não toda, mas li».
E foi dessa leitura que surgiu a «estranheza» pela história dos dois primeiros filhos de Adão
e Eva - o casal primordial do livro dos Génesis. «Porque é que Deus aceitou o sacrifício de Abel e rejeitou o sacrifício de
Caim?». A «perplexidade» perante este Deus arrastou-se, segundo o autor, nos últimos anos até chegar a ser livro. Um livro
sobre um Deus cujas decisões não compreende. «O Deus da Bíblica não é de fiar».
Saramago admitiu que a visão da
Bíblia que apresenta não é a da fé, até porque a fé é algo que não aceita pessoalmente. «Inventamos Deus e logo a seguir escravizamo-nos
a ele», disse o escritor, descrevendo-se como um «ateu capaz de ser sensato», mas que considera que o próprio «facto de ser
ateu» já é uma manifestação de sensatez. «A minha mulher costuma dizer que Deus fez o mundo em seis dias. E nota-se», gracejou,
acrescentando depois: «Ao sétimo dia descansou. E continua a descansar até hoje».
O escritor disse que as afirmações
que fez sobre a Bíblia são sobre o que está escrito e não sobre produtos da exegese bíblica. Relativamente à escrita, o Prémio
Nobel disse que apenas tem coragem para escrever sobre os temas que escreve porque já não existe inquisição: «Se houvesse
fogueiras em S. Domingos talvez não tivesse a coragem de escrever Caim». Recusando mais polémicas, José Saramago, concluiu:
«Eu não tenho culpa, eu não matei Abel».
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