Os imponentes edifícios da maior Misericórdia dos Açores, não permitem imaginar o que acontece lá dentro, onde funcionam os Cuidados Continuados. No terceiro andar, por exemplo, o piso está cheio de armadilhas.

Para o médico Teixeira Veríssimo, especialista em geriatria do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra, contactado pela TVI, “para além do aspeto degradante, [o piso] é realmente perigoso para as pessoas idosas, porque têm maior tendência para cair, por variadíssimas razões. Arrastam os pés e, quando tropeçam nalguma coisa, têm mais dificuldade em evitar a queda, em se protegerem”.

Confrontado com imagens desta unidade de Ponta Delgada, é perentório: “Obviamente que isto não deve acontecer em qualquer casa onde vivam pessoas idosas.”

Além do problema do piso, é nesta unidade que funciona a lavandaria da Misericórdia de Ponta Delgada, onde as imagens que a TVI teve acesso mostram que se acumulam os alguidares, os contentores, os baldes e até a roupa no chão. É uma situação que leva o médico Teixeira Veríssimo a concluir que as instalações não têm as “condições mínimas” necessárias.

Há mais problemas, incluindo em matérias de segurança. Está à vista de qualquer um: fios descarnados, buracos.

Efetivamente, não tem as condições mínimas para funcionar como unidade de cuidados continuados”, diz Teixeira Veríssimo.

Doentes amarrados à cama

Acontece hoje. Aconteceu muitas outras vezes. 

A minha Mãe dizia: “eu quando cheguei lá, vi o teu Pai amarrado com uma mão num lado, uma mão no outro (…). Estavam amarradas numa cama e noutra. Parecia o Senhor dos Passos”, relata uma familiar de um doente falecido.

 

Um dos meus familiares foi lá e ele tinha a perna a escorrer sangue de estar amarrado. Ele, coitadinho, aflito. Nós levámos-lhe o cadeirão, o cadeirão que tinha em casa nós levamos para a Santa Casa, para ele ter melhores condições. E mesmo assim, maltrataram-no. Só o maltrataram”, acrescenta.

O especialista em geriatria Teixeira Veríssimo assegura que as orientações atuais vão no sentido de não se usar contenção física. “Quando usado, só em condições muito excecionais. Há maneiras de controlar as pessoas que, eventualmente, estejam agitadas, até que sofram de demências, por métodos químicos, por métodos farmacológicos, ou outros, reservando-se a contenção física para situações realmente excecionais”, sublinha o médico.

Mas remédios é coisa que, muitas vezes, não existe nesta unidade da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada. Os medicamentos ou faltam ou estão fora de prazo.

Seja qualquer medicamento que fosse... para a doença do doente, para a tensão... não havia, não se dava. Tão simples quanto isso. Não havia qualquer tipo de preocupação”, denuncia uma antiga funcionária da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada.

 

Se eles não fazem a medicação à noite, para descansar, é claro que não vão conseguir dormir. E então ficam mais irrequietos. E, então, como ficam mais irrequietos, o que é que fazem? Amarram os pulsos à cama para o utente ficar ali quieto. Imagine ficar uma noite inteira com os pulsos amarrados à cama. Imagine”, revela uma atual funcionária.

Outra falha grave, assumida por quase todos os que ali trabalham ou trabalharam, é a dificuldade de levar os doentes ao hospital. É disso exemplo o drama de uma idosa que caiu de uma cadeira e a quem foi negada uma ida às urgências.

Ficou com a testa aberta, que precisava urgentemente de levar pontos. E então a enfermeira chefe, como nada era feito sem o consentimento das chefes, disse: não, não. Não vai levar pontos. Isso vai levar um penso aí e amanhã ela está melhor. Dois dias depois a senhora faleceu’’, relata uma atual funcionária.

“A senhora tinha os pés gelados”

Uma mulher que tinha ido visitar os avós, ao sair foi surpreendida pelos gritos de duas mulheres. Estavam sentadas em cadeiras de rodas e de costas uma para a outra, num quarto perto do elevador.

Uma chorava e era incapaz de falar. Dirigi-me à que estava nas costas dessa senhora. Tinha os pés descalços, não chegava com os pés ao chão e tinha os pés gelados. Eu calcei-a, acalmei-a, perguntei-lhe o que se passava. Dizia que não conseguia mais estar sentada, porque estava cheia de fezes e de urina e porque tinha o corpo gelado e que estava naquela posição desde as oito da manhã. Estava há horas a gritar e ninguém aparecia”, relata uma familiar de dois utentes da instituição.

 

São idosos tratados de forma miserável, e isso é algo que já se arrasta há muito tempo”, resume uma ex-funcionária.

Denúncias também na ilha Terceira

Os relatos não escondem a indignação com o estado de coisas na Santa Casa de Ponta Delgada. Mas as denúncias de maus tratos e de negligência chegam também à ilha Terceira.

João Barcelos da Costa fez a vida no mar. Baleeiro de outras marés, era o arpoeiro mais famoso da ilha e um dos mais conhecidos dos Açores. Aprendeu sozinho a tocar guitarra portuguesa. E, aos 80 anos, não esconde a felicidade de ser acompanhado pelo neto.

João Costa foi parar aos Cuidados Continuados da Misericórdia de Angra do Heroísmo, depois de uma broncopneumonia grave. Foram dois longos meses. Em rigor, aguentou um mês e 19 dias.

Pedi à minha filha que me queria vir embora para casa. Pedi para elas fazerem o possível para me tirar dali para fora, quanto mais depressa melhor, quanto mais depressa melhor, porque senão eu morria lá!”

Na Santa Casa de Angra estão bem mais de centena e meia de idosos. A maior parte ocupa a valência de lar. Mas há 88 pessoas a viver nos Cuidados Continuados. Aqui, os problemas passam pela falta de material e, sobretudo, gente para trabalha

Se há falta de pessoal, os cuidados não podem ser bons. É impossível serem bons”, resume um antigo responsável pela enfermagem da instituição.

 

Se dedicássemos o tempo que cada pessoa merece que nós lhe dediquemos, não conseguíamos chegar a todas elas. Por isso, acabávamos por fazer tudo um bocado à pressa e um bocado a despachar”, acrescenta uma antiga enfermeira.

O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo assegura que a instituição tem “os recursos humanos que estão definidos nos rácios que são determinados pela regulamentação existente”.

Banhos de água fria e duas quedas da janela

Aqui, um simples banho pode ser sinónimo de tortura. Quer de verão, quer de inverno, muitas vezes, o banho é tomado com água fria. Basta faltar o gás para isso acontecer, como denuncia uma antiga auxiliar.

Os utentes, coitadinhos, uns gritam, outros reclamam outros não podem dizer muito porque mal falam. E as famílias não sabem.”

No espaço de pouco mais de um ano, duas pessoas caíram da janela do prédio da Misericórdia de Angra. A última, foi a 29 de julho de 2017. Foi durante a noite. O doente tinha 41 anos.

Não se tratou de uma pessoa idosa. Tratou-se até de um jovem. Um jovem com doença oncológica, que estava nos cuidados continuados. Lamentavelmente, pelas declarações que ele prestou, porque felizmente ficou consciente, tratava-se de um ato voluntário’’, diz Bento Barcelos, provedor da Santa Casa de Angra do Heroísmo.

A versão é contrariada pela família. O pai do homem recusou ser filmado, mas contou o que lhe disseram.

O filho levantou-se de noite para ir à casa de banho, encontrou uma porta aberta, avançou por engano e caiu, desamparado, no solo. foi transportado de urgência para o hospital do Santo Espírito da Ilha Terceira. Salvou-se, dessa vez. Viria a morrer, uns meses mais tarde, na sequência do cancro.

Só depois desta segunda queda foram colocadas fechaduras nas janelas. Antes, já Ivone se tinha atirado do segundo andar. Uma queda que foi, na altura, ocultada. 

É no hospital que têm sido detetadas e denunciadas situações assumidas em documentos internos, como más práticas de enfermagem por parte da equipa da Santa Casa de Angra.

Situações mais do que suficientes para compreender a revolta e a dificuldade que alguns profissionais do maior hospital da ilha Terceira assumem ter no envio de doentes para a Unidade de cuidados continuados da Misericórdia de Angra.

Velhos de primeira e velhos de segunda

Voltamos a S. Miguel. Na Misericórdia de Ponta Delgada, os maus tratos são quase generalizados, embora existam pequenas diferenças. No primeiro andar, as melhorias estruturais concretizadas pela troika, no meio ano em que esteve na instituição, proporcionaram um espaço melhor do que os outros. Talvez uma seja uma prova de que a missão de mudar radicalmente as condições e a forma de cuidar dos utentes terá ficado a meio.

O primeiro andar é conhecido como "piso VIP" e pouco ou nada tem a ver com as imagens dos outros pisos. Na prática, isto significa que, na Misericórdia de Ponta Delgada, existem velhos de primeira e velhos de segunda.

Nunca se age, naquela instituição, por respeito ao utente que de nós precisa. Age-se de acordo com a aparência necessária, com a família da pessoa, a família a que a pessoa pertence. Age-se de acordo com o capital. O capital real, económico, financeiro que a pessoa representa para a casa”, denuncia um antigo psicólogo da instituição.

A denúncia é corroborada por uma antiga funcionária: “As pessoas que são bem tratadas são aqueles que os familiares vão ver. Ou então de algum conhecido, ou então... há ali classes! É como se fosse umas classes: classe baixa, classe média... Para uns há tudo e para os mais necessitados não há nada.”

Uma antiga funcionária relata exemplos de negligência grosseira, que ocorrem em diversos serviços da Misericórdia. “As bacias que davam banho aos doentes não eram desinfetadas. Passavam de doente para doente, mesmo os que tivessem HIV, tivessem herpes, tivessem qualquer tipo de doenças contagiosas. As bacias não eram desinfetadas”, denuncia.

"Não sabia se ia para casa, se ia à polícia"

É uma realidade vista por muitos funcionários. Para alguns logo ao fim do primeiro dia de trabalho. “No dia em que eu entrei, eu não sabia se ia para casa ou se ia à polícia. Isso é mesmo literal, como eu lhe estou a dizer. Eu vi lá bater na cabeça, enfiar a colher pela boca adentro, agarrar no cabelo e enfiar pela boca adentro”, diz um antigo funcionário.

Nas Urgências do Hospital Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, os doentes que chegam de unidades de cuidados continuados da ilha de S. Miguel vêm todos do mesmo sítio. “Não há justificação que numa Santa Casa, em três meses, 14 doentes tenham sido transferidos para o serviço de urgência. Isto, atenção, numa unidade com 40 camas, quando nós temos uma unidade com 20 camas, na mesma ilha, que não transferiu nenhum”, diz Margarida Moura, Coordenadora da Rede de Cuidados Continuados.

A TVI conseguiu chegar a muitos dos processos clínicos destas pessoas, que não vai identificar, e verificou que os doentes, quase todos os que chegaram da Santa Casa, sofrem de problemas muito semelhantes: são homens e mulheres muito debilitados, magros, alguns muito desnutridos, apesar de terem uma sonda naso-gástrica para alimentação.

Nestas fichas clínicas sublinha-se também que quase todos os doentes chegaram às urgências muito desidratados.

É um quadro cheio de alertas para tratamentos negligentes, para cuidados muito precários, encontrados também este ano em utentes da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada. Quatro destes casos foram denunciados ao Ministério Público de Ponta Delgada.

Aliás, a Justiça está carregada de denúncias com acusações à Santa Casa de Ponta Delgada. A primeira chegou em 2015 e a última é a da agressão ao Sr. António, a 11 de junho deste ano. A TVI pediu para consultar o processo, o que foi recusado, apesar de não estar em segredo de justiça.

Mas, pela resposta, ficámos também a saber que há três processos que correm em separado e que as dezenas de denúncias apresentadas pela Rede de Cuidados Continuados, em 2016, estão em fase inicial de investigação.

O "quarto da morte"

Os utentes que acabaram por morrer no hospital escaparam ao “quarto da morte” da Misericórdia de Ponta Delgada. Um espaço hoje desativado, mas que mantém este mesmo aspeto frio e desumano. O “quarto da morte” serve, agora, de arrumação. Durante anos, os doentes eram atirados para aqui. Morriam sozinhos, abandonados, para não incomodarem ninguém.

Era um quarto que, quando o doente estava para morrer, colocavam o doente separado dos outros. Num quarto sozinho, que era extremamente gelado e desumano, e ficava lá aquela pessoa para falecer, para não estar junto dos outros utentes”, revela uma antiga funcionária.

Confrontada com os factos, a Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada não dá explicações. Nem promete mudar. O Estado tem a responsabilidade social de assegurar um final de vida digno para todos. Se o Estado não defende os idosos quem o vai fazer?

O Governo Regional dos Açores tem-se mostrado surdo e mudo. Foi assim até agora. Manter-se-á assim até quando?

E a Justiça? Estará ela a cumprir o seu papel de assegurar os direitos humanos a quem trabalhou uma vida toda?