Com apenas 15 anos, Ricarda Marcelino é uma jovem com experiências e ambições fora do habitual. É aluna do 10º ano de um curso de agricultura, representante do Instituto de Apoio à Criança (IAC), está ligada ao «Projeto Rua» (projeto social que pretende ajudar jovens sem-abrigo), e um dia espera ocupar o lugar que é hoje de Assunção Cristas: ministra da Agricultura e do Mar.

Ricarda vem de uma família com dificuldades, vive num bairro de Chelas, em Lisboa, e esta terça-feira teve a oportunidade de contar a história das complicações que conheceu na infância, dos problemas sociais do seu bairro e da discriminação que sentiu, e sente, por ser de onde é.

No encerramento da conferência dos 25 anos da Convenção dos Direitos da Criança, que se realizou na Assembleia da República, Ricarda contou que a sua família recebe comida de uma instituição, que é vista de maneira diferente por ser de Chelas, que sabe as dificuldades de conseguir emprego por ser dali, mas que essas não são razões para não ter ambição.

«No meu bairro há muita gente a recorrer ao Banco Alimentar. A minha mãe recorre a uma instituição que nos traz comida, às vezes também medicamentos. Quando digo que sou de Chelas, às vezes olham para mim como se fosse de outro planeta.  No meu bairro, conheço casos de pessoas que vão à procura de emprego e não conseguem por serem de Chelas, desistem à primeira e ficam à espera do Rendimento Social de Inserção (RSI). Eu não quero ser assim, (…) um dia quero ser ministra da Agricultura».

A jovem aproveitou, ainda, para elogiar o trabalho do Instituto de Apoio à Criança, e o papel que teve na sua vida.  «O IAC têm-me dado oportunidade de fazer coisas que, de outra forma, nunca faria. Mesmo que caia no buraco mais fundo, eles estão lá sempre», continuou. 

Depois da intervenção de Ricarda, foi a vez do ministro da Educação, Nuno Crato, tomar a palavra, não poupando elogios à jovem e ainda «brincando» com o seu desejo de ser ministra.

«Quando ouvi que queria ser ministra, ainda pensei que fosse da Educação, e garanto que não é o trabalho mais confortável do mundo. (…) Admiro muito que na tua idade tenhas essas ambições», disse.

Nuno Crato aproveitou a ocasião para elogiar as associações e instituições como o IAC, e para lembrar a aposta que o ministério tem feito na Educação dos jovens, em especial das crianças mais novas. O governante diz a rede pré-escolar já cobre 97% das crianças portuguesas.

«O ministério está muito empenhado no ensino superior, secundário [e outros ciclos], mas estamos mais focados no 1º Ciclo, que é um Ciclo fundamental para enfrentar os anos seguintes com mais solidez», explicou.

Crato aproveitou o exemplo da jovem Ricarda para ilustrar a importância dos cursos profissionalizantes, que, segundo números avançados pelo ministro, já representam 44% dos alunos portugueses. Um ensino que o ministro considera fundamental nos tempos que correm.

«O ensino profissionalizante é o único que dá imediatamente uma profissão. [Treina] os mais jovens para responder às necessidades empresariais», continuou.

O ministro ainda elogiou a descida da taxa de abandono escolar, que terá descido de 30% para 19% desde 2010.