“Conhece as andorinhas? Chega a primavera, abril e maio, vêm para aqui, fazem os filhos, têm os filhos, uma vida fantástica, rebuliço, barulhos, até jogam tareia às vezes, chamam-se nomes... Mas [quando] acham que estão bons, voam!"

“Quero que eles tenham a certeza que têm. Um lar que os serve enquanto precisam, quando não precisam vão-se embora".

João Almiro


Já teve uma fortuna incalculável, foi fundador do Laboratório Farmacêutico Labesfal, é dono de uma farmácia em Campo de  Besteiros. João Almiro tem 89 anos e abdicou de tudo para viver com assassinos, pedófilos, prostitutas, alcoólicos, toxicodependentes, crianças, velhos, deficientes e dementes. 
  
João Almiro acredita que "não há homens maus". Como ninguém, conhece todas as prisões de Norte a Sul do país. Vai buscá-los no seu velho carro de 1999. Partilha a própria casa com eles porque acredita que é possível recuperá-los. 
  
"A Casa das Andorinhas" - é assim que lhe chama - é uma  porta aberta para entrarem "todos os aflitos".  Histórias de homens e mulheres que ninguém quer e que aprenderam a voar. 
  
Quando Joaquim tinha 12 anos, o pai andava sempre com um garrafão de vinho. “Só queria beber, batia na minha mãe e eu para sobreviver tive que ir. Não tinha outra escolha, se não fosse, metia-me na rua. Passei muitas noites sem dormir,  não sabia o que era uma casa, não sabia o que era um quarto, dormia ao pé dos animais. Não tenho vergonha de um dia dizer que a minha casa foi ao pé dos animais. Nasci com as ovelhas. Quando vim para cá as pessoas perguntavam-me: - ‘Que idade tens?’ E eu: - ‘Não sei!’. 

Quando chegou a casa de João Almiro não tinha Bilhete de Identidade, não tinha documentos. “Só sabia que estava registado em Carregal do Sal”. Joaquim comove-se: “Eu não era nada, eu era um bicho”. E aponta João Almiro como o seu salvador, pois agora, quando olha para si, consegue encontrar um caminho: “Vejo que sou um homem”. 

João Almiro desfia os nomes das cidades dos homens e mulheres que ninguém quer: “Aveiro, Porto, Coimbra, São pedro do Sul, Lamego, Viseu, Guarda…” Daí chegam-lhe muitos casos que o sistema não tem solução. O filho de João Almiro, que tem o mesmo nome do pai, recorda o caso de um condenado da máfia moldava que foi parar à casa das Andorinhas com “os pés podres” – recusou a amputação - porque os serviços de assistência não sabiam o que fazer com ele.
 

Amanhecer 


São 5:00 da manhã. Há já quem esteja de pé. No quarto ao lado, pode-se  dormir pelo menos mais duas horas. São velhos que ainda não encontraram trabalho lá fora. Deficientes que se limitam a ir ficando. 

Pontualmente às 8:00, João Almiro junta-se aos restantes residentes com quem partilha esta casa. Aqui todos fazem alguma coisa. É hora de distribuir tarefas. Uns vão tratar dos animais, outros para as lides da terra. Antes de saírem, todos tomam a medicação.

Os primeiros a sair  são dois ex-toxicodependentes. E um incendiário, Alfredo, detido por fogo posto, que da prisão, diretamente para a Casa das Andorinhas, para cumprir o que lhe falta da pena. “Não tinha mais sítio para onde ir”, explica.

Na agricultura está o Manel e o Aniceto. Dois alcoólicos em recuperação há respetivamente 2 e 27 anos. 
Na casa das andorinhas, tudo o que vem da terra é aproveitado para as refeições, como legumes, batatas, ou até mesmo a carne - são criação para consumo interno.

Álvaro, alcoólico,  já aqui está há dez anos. Quando chegou não comia sozinho. Não sabia pegar num garfo. A Maria, também alcoólica, chegou à casa há nove anos. Praticamente não fala. Não sabe sequer quantos anos tem.

“Em 1988, estive em Londres e conheci uma instituição em Bristol que gastava por criança dez vezes o meu salário aqui a nível nacional, que eu recebia aqui em Portugal. Lá, nessa instituição cheia de técnicos, eles não conseguiam um décimo de resultados que consegue o dr. Almiro aqui com duas cozinheiras e ele próprio”, explica o pedopsiquiatra Mário Jorge.

Samuel, 35 anos, trabalha hoje entre fardos de palha. Descreve uma infância de miséria: “Chegava a casa. ‘De onde é que tu vens, vagabundo?’ Pronto, porrada em cima”. Fala em gratidão: “Quando eu precisei o Dr. Almiro ajudou-me, agora é a minha vez. Até para caminhar temos de o segurar, Se agente lhe dá com os pés e vamos embora, o que é dele sem nós”. 

O pai de Samuel, o homem de quem fugiu na infância, veio também aqui parar. Sentado na velha cadeira, vê como o filho está praticamente independente, com carro próprio carro pago com o dinheiro que ganha no matadouro de Vilar de Besteiros.
 

A história de Almiro


Ao todo 40 residentes, que vão entrando e saindo, nesta que começou por ser a sua casa, com a farmácia Almiro no andar de baixo. Depois, as  primeiras instalações do laboratório farmacêutico-Labesfal, de que foi fundador. João Almiro criou os seus próprios fármacos, os primeiros soros a serem testados em Portugal.

“João Almiro conseguiu ir buscar o melhor que eu havia na farmácia na altura e conseguiu aplicá-los cá. O laboratório iniciou-se na sala, onde começou a preparar alguns xaropes. Da sala passou para outra divisão, aos poucos o laboratório foi crescendo nas divisões da própria casa”, conta o farmacêutico João Pedro Pinto.

O tempo, acabou por fazer o resto. A casa foi-se enchendo de gente aflita, umas chegadas através da farmácia, outras através do próprio laboratório. Hoje é a farmácia Almiro, que entretanto mudou de local, que financia o sustento da casa. “Pelo menos, da farmácia, sai no mínimo quatro mil euros em medicação”, acrescenta. 

E quando o dinheiro não chega, conta com a solidariedade das farmácias de todo o país, que em tempos chegaram a vender rifas para ajudar. “ Nós acreditamos que isto é uma parte da farmácia, faz parte do nosso DNA da farmácia”, justifica Paulo Duarte, outro farmacêutico. 

“Sabemos as despesas que temos em casa. Multipliquemos isso por 40 indivíduos que vão diariamente a Viseu, a Coimbra. Há um carro para cada lado quase diariamente. Comida, tribunal (devido aos problemas que eles têm). Isto é um gigante absorvedor de rendimentos do dr. Almiro. Não sei até que ponto é que, um dia, conseguiremos manter esta obra”, confessa o farmacêutico João Pedro Pinto.

A tudo isto juntam-se ainda as despesas com advogados. Todos os presos que já passaram pela casa, sabem que podem contar com a sua ajuda. João Almiro não esquece ninguém: “Tenho seis ou sete presos na cadeia”.

Para Paulo Duarte, presidente da Associação Nacional de Farmácias, “este homem não pede nada, dá tudo”. “Ele fala sobre estas coisas como se fossem normais, como se fosse normal eu estar ao pé de uma pessoa que ontem fez um assalto ou um pequeno assalto ou então tem um problema grave de alcoolismo. Como se isto fosse viver no meio destas pessoas, como se partilhar o nosso espaço, as nossas refeições com eles fosse normal”. 
 

Refazer a vida


Araújo, 37 anos, foi dos que já esteve na casa, saiu, regressou e tal como as andorinhas, levantou voo. “Estive preso durante oito anos, onze meses e 24 dias. Burla com alimentos, fui condenado com quatro, cinco vezes por não ter carta de condução, e também outros tês processos com cheques sem provisão”. 

Saiu da prisão com vinte euros no bolso. “Entrei com uma mão à frente e sai com uma mão atrás. Se não tivesse aqueles vinte euros, provavelmente, ou vinha a pé ou então teria que ir cometer algum crime”, confessa.

Depois de regressar da prisão, precisou apenas de meio ano para endireitar a sua vida. Aqui casou com a Daniela, uma das cozinheiras das Andorinhas e aqui tiveram um filho. 
 

Os casos mais difíceis


“O meu pai é o meu avô. É muito triste o meu pai ser o meu avô”, conta Paulo Alexandre, 29 anos, outro dos protegidos de João Almiro. Um dia, enganou-se e em vez de chamar avô, chamou pai à quele que tinha sido, de facto, o seu progenitor. E levou um estalo da tia na cara. 

Paulo veio para a Casa das Andorinhas aos 17 anos. Hoje já está praticamente independente. Arranjou um emprego numa fábrica de adubos e até já alugou um apartamento. Todas as refeições continuam, no entanto, a ser tomadas na Casa das Andorinhas. 

O pedopsiquiatra Mário Jorge vai a esta casa todos os meses há mais de 20 anos. “O que dá a vantagem a João Almiro é ele fazer aquilo que ele acha que funciona nas pessoas, independente de ser politicamente correto ou não”. 

João Almiro acha que os técnicos da Segurança Social deviam sair do gabinete, deviam ir para a rua. “Por mim, com o que o Estado gasta, eu fazia o dobro”, assume. A generosidade de João Almiro não acaba. Se alguém lhe pede, lá vai ele no sei carro de 1999 socorrer mais um aflito que precisa de ser operado à próstata. E lá vai ele a caminho do tribunal defender mais um dos seus rapazes. 

Tem medo de morrer? "Tenho ânsia de morrer, já estou cansado. Mas não os queria abandonar". 


NOTA: Em resposta aos inúmeros pedidos de pessoas que querem contribuir para a obra da Fundação João Almiro, a Associação Nacional de Farmácias abriu uma conta solidária onde poderá depositar a sua ajuda.

NOVO BANCO
Nº de Conta: 257158300005
NIB: 0007 0257 00158300005 08