A Solami vive com um 1,2 milhões de euros que recebe por ano da Segurança Social e das pequenas comparticipações dos utentes.

Se não é a única, é a mais importante Instituição Particular de Solidariedade Social, de Casal de Cambra, em Sintra. Quando foi criada, na década de 90, acolhia cerca de 150 pessoas. Hoje são mais de 800. José Amaral, de 86 anos, é um deles.
 

“Fui criado na fome e vou morrer na fome.”


Segundo dados do Observatório de Luta contra a Pobreza, o rendimento dos mais pobres caiu 24% devido às alterações introduzidas nas transferências sociais, como o Rendimento Social de Inserção, o complemento solidário para idosos e o abono de família.

Carla Ribeiro é desempregada de longa duração. Tem 39 anos, duas filhas com problemas graves de saúde e necessidades educativas especiais. Não recebe qualquer prestação do Estado, além dos 50 euros de abono de família.

Todos os dias, vai buscar comida a esta IPSS.
 

“O pouco orgulho que tinha já o perdi (…) A vida dá tantas voltas, temos que aceitar aquilo que Deus nos dá neste momento.”


As crianças são as grandes vítimas das crises económicas e financeiras. Com as escolas fechadas, a única refeição quente do dia é servida pela Solami.

A diretora da instituição, Teresa Elias, conta que as crianças mascaram a fome com a vergonha.
 

“Não se ouve eles dizerem: gostava de ser isto, gostava de ir para aquilo… Alguns mais crescidos até já dizem que gostavam de emigrar.”


As desigualdades de rendimento são das maiores da OCDE e da União Europeia. Segundo estatísticas de 2013, um português que pertença ao grupo dos 10% mais ricos recebe 11 vezes mais que um português que pertença aos 10 mais pobres.

Uma realidade que não revolta os utentes da instituição, que já se resignaram ao fosso que separa os pobres dos ricos.