Munidos de enxadas e de pás, 800 voluntários treparam este sábado montes, abriram buracos e colocaram dez mil árvores na Serra do Caramulo, no concelho de Tondela, onde no verão passado ardeu uma área superior a 60 quilómetros quadrados.

Nem a chuva arrefeceu o entusiasmo dos voluntários, que começaram a reunir-se cerca das 09:00 junto ao Museu do Caramulo para depois partirem divididos em grupos rumo a vários pontos da serra, no âmbito da campanha «Plantar Caramulo».

O presidente da Câmara de Tondela, José António Jesus, integrou um dos grupos que plantou árvores na freguesia do Guardão, numa área próxima dos viveiros, que por duas vezes foi fustigada pelos incêndios no verão passado.

«Temos mais de três mil árvores, o que quer dizer que, à partida, cada um pode plantar dez a quinze. Só no fim disso é que se dá o trabalho por realizado», disse o autarca ao seu grupo, que integrava militares do Regimento de Infantaria 14, Guias, Escoteiros, elementos da Autoridade Nacional da Proteção Civil, da GNR e dos bombeiros.

O presidente da Junta de Freguesia do Guardão, António Ferreira, explicou que deviam ser guardados cinco metros entre cada árvore e agradeceu a presença no que considerou ser "um primeiro passo para uma viagem que é longa" de reflorestação da serra.

«Vamos ao trabalho», disse José António Jesus, após o que os voluntários pegaram nas paletes com as pequenas árvores e carregaram-nas encosta acima, dando início à plantação.

Da capital de distrito, deslocaram-se até ao Caramulo mais de 50 pessoas ligadas à Associação Guias de Portugal, entre chefes, crianças e pais.

Rafaela Sousa contou que, no verão passado, as Guias estiveram acampadas na serra, em Campia, na época dos incêndios e, por isso, não hesitaram em participar na campanha «Plantar Caramulo».

«As miúdas sentiram muito o facto de a serra estar toda a arder e estavam bastante preocupadas. Esta iniciativa é muito boa para elas também verem o outro lado: arde, mas também pode voltar a crescer», afirmou.

Carolina Lopes, de 11 anos, lembra-se bem dessa altura, em que ouvia com frequência as sirenes dos bombeiros passarem perto do acampamento.

«Tínhamos sempre contacto com os bombeiros, porque o fogo podia ir para lá (para o acampamento) e era preciso irmos embora», recordou.

Já Gabriela Ventura, de 10 anos, lembra-se de ter visto os incêndios do Caramulo na televisão e também «ao longe», quando olhava para as encostas da serra.

«Viam-se chamas e fumo no ar. Achei que era bom vir cá plantar árvores para ajudarmos a que a serra volte a ficar verde e um dia possamos voltar a acampar cá», afirmou.

Tiago Pocinho, da Autoridade Nacional de Proteção Civil, integrou o grupo acompanhado por mais dois colegas.

«Não devemos só participar no combate aos incêndios florestais, mas também na plantação das árvores, interagindo com a população e mostrando no terreno que estamos nestas ações», referiu.

Silvie Paulo, de 47 anos, lembrou «a serra bonita que ardeu, os bombeiros que morreram» e toda a tragédia que foi acompanhando pelos noticiários.

«Fico muito triste por ver o que acontece todos os anos em Portugal e não percebo porque não se combate antes de acontecer. Não custa dar umas horitas do nosso tempo, em vez de ficarmos a ver televisão ou à frente do computador», conta a Lusa.