O Ministério da Saúde partilha as críticas do Relatório de Primavera, que identifica desigualdades elevadas em saúde, defendendo um sistema mais próximo da comunidade.

De acordo com o secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado, que participou na apresentação deste relatório esta terça-feira, elaborado pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), existem em Portugal desigualdades que se traduzem “numa melhor saúde para os ricos e numa pior saúde para os pobres”.

O relatório indica que as desigualdades em saúde em Portugal são elevadas e que os anos de “profunda recessão económica e de cortes orçamentais” tiveram consequências que ainda não são conhecidas.

Portugal tem vivido anos de profunda recessão económica e de cortes orçamentais em várias áreas, incluindo a saúde, educação e segurança social. Neste sentido, as desigualdades em saúde representam uma preocupação acrescida, à luz dos custos elevados que acarretam”, lê-se no documento.

Para Manuel Delgado, estas desigualdades devem-se, em parte, às medidas levadas a cabo pelo anterior governo, que “passou ao lado destes cuidados”.

O governo anterior deixou-nos, nesta matéria, uma herança pesada. Há populações que residem a centenas de quilómetros de equipamentos de saúde essenciais, enquanto outras usam-nos com redundância”, disse.

No lugar de uma visão focada no hospital, o secretário de Estado da Saúde defende um modelo de saúde centrado na comunidade, com o qual acredita poder combater as assimetrias.

No debate que antecedeu a intervenção de Manuel Delgado, o bastonário da Ordem dos Médicos defendeu o reforço dos “alicerces do Serviço Nacional da Saúde (SNS)", considerando que "estão claramente fragilizados”.

José Manuel Silva comentou ainda, a propósito de um aumento de serviços privados, através dos seguros de saúde, mais acentuado em tempos de crise, que esta escolha só existe quando as pessoas não estão doentes.

“Quando estiverem doentes, vão ver que a verdadeira resposta existe no SNS”, adiantou.

Intitulado “Saúde – procuram-se novos caminhos”, o documento começa por recordar os relatórios elaborados nos últimos seis anos, nomeadamente sobre a questão da crise na saúde.

Constatamos que a crise e o seu impacto na saúde dominou as atenções nesses anos, tendo o OPSS apresentado ao longo desses anos diversas sugestões e alertas que poucas vezes foram tidos em conta”, lê-se no relatório que será hoje apresentado em Lisboa, na presença do ministro da Saúde.

Os autores indicam que “o acentuado corte nas despesas com saúde", que "fizeram baixar alguns pontos no ranking da OCDE, tiveram efeito mais acentuado nas despesas com medicamentos e recursos humanos”.

Esses cortes ultrapassaram os cortes propostos pela troika no Memorando de Entendimento e ainda estamos longe de conhecer o verdadeiro impacto no sistema nacional de saúde, nomeadamente nos ganhos em saúde obtidos ao longo dos últimos anos”.

Em relação às desigualdades sociais em saúde, os autores concluíram que estas são uma “evidência recente para Portugal”, país onde existem “razões adicionais de preocupação”.