Os funcionários do setor público estão mais expostos aos fatores de risco psicossocial, manifestando um «acentuado alheamento» face à sua realidade profissional, revela um estudo da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde (APPSO).

O estudo consta do Relatório de Avaliação de Perfil de Risco Psicossocial - A gestão de Pessoas e Organizações Saudáveis», que vai ser apresentado na quarta-feira na Comissão parlamentar de Saúde, a pedido da APPSO.

Uma das conclusões do estudo, que avaliou 33.900 casos de trabalhadores entre 2008 e 2013, refere que o «setor público manifesta um maior risco de exposição aos fatores de risco psicossocial» do que o setor privado.

No setor público, 86% dos trabalhadores apresentam elevado risco de falta de energia para enfrentar desafios que lhes são colocados e 93% de não estarem suficientemente implicados nas suas tarefas laborais.

Já 93% apresentam um elevado risco de não controlarem o que estão a viver no contexto laboral, 87% manifestam um fraco sentimento de justiça e 92% apresentam um elevado risco de desenvolver cinismo (forma que encontra para se relacionar com os outros e que não traduz o que ele é na realidade).

Segundo a investigação, os funcionários do setor público apresentam «um perfil mais preocupante, denotando um acentuado alheamento face à sua realidade profissional enquanto encarada como execução».

«Estamos perante uma situação que traduz incapacidade quase generalizada para gerir sentimentos despoletados pelas experiências laborais e necessidade percebida de ajustamento a exigências e mudanças impostas», sustenta.

No privado, não foram encontrados fatores de elevado risco, sublinha o estudo, adiantando que este setor apresenta níveis de vigor, de realização e de perceção de justiça mais elevados do que o setor público.

Em declarações à Lusa, o presidente da APPSO apontou os cortes nos salários dos funcionários públicos com uma das razões que estão na base desta situação.

«O setor público entende que está a ser mais prejudicado nesta questão do que o setor privado», disse João Paulo Pereira.

O estudo comparou a área da Educação, no público e no privado, tendo verificado também uma maior exposição aos «fatores de risco» no setor público.

Os autores do estudo observam que 2012 e 2013 foram «anos de intensa agitação na área da educação», um facto pode «exercer uma influência direta» nos resultados obtidos.

No setor da Saúde, não foram encontradas diferenças significativas entre o público e o privado.

João Paulo Pereira adiantou à Lusa que Portugal tem, neste momento, «um quadro de avaliação de riscos psicossociais assustador», com custos indiretos muito elevados no trabalho e na saúde.

Contudo, esta situação pode ser combatida através do desenvolvimento de competências com os trabalhadores, um trabalho que cabe fundamentalmente às empresas.

«As empresas e os empresários portugueses neste momento estão a reagir e não a agir», lamentou o responsável.

«Se as empresas aproveitarem algumas horas de formação anuais que têm por trabalhador para fazer workshops e desenvolver ações na área de desenvolvimento de competência e na área do apoio¿ poderão reduzir os níveis de absentismo e grande parte das variantes negativas do trabalho», como escreve a Lusa.