A família de um jovem português que morreu após uma operação policial em Londres vai fazer um apelo ao ‘mayor’ de Londres para suspender os agentes envolvidos e ajudar no esclarecimento das circunstâncias da morte.

A carta será finalizada nos próximos dias e fará parte de uma campanha que incluirá petições e sessões públicas de debate sobre o abuso de poderes por parte da polícia, disse Rokhsana Fiaz, vereadora em Newham.

Vamos fazer lóbi junto de Sadiq Khan para suspender de imediato os agentes enquanto decorre a investigação [à morte]", adiantou.

Edir Frederico da Costa, conhecido pelos próximos como Edson, morreu a 21 de junho no hospital de Newham, depois de vários dias internado.

A família do português de 25 anos, residente no Reino Unido desde 1996, alega que o jovem foi vítima de violência dos agentes que o tentaram prender em 15 de junho, durante uma operação policial.

Seguindo os procedimentos neste tipo de casos, a Comissão Independente de Queixas contra a Polícia (IPCC) abriu um inquérito ao sucedido, mas os agentes continuam em serviço.

Uma semana após a morte, a entidade informou que já tinha começado a interrogar polícias e outras testemunhas e a analisar filmagens, e que estava a analisar o conteúdo de cápsulas retiradas da garganta do jovem.

Indicou então que a autópsia preliminar não tinha encontrado fraturas no pescoço, lesões na coluna ou hemorragia cerebral que indicassem o uso de força excessiva.

Porém, passados três meses, continua sem esclarecer as causas da morte nem acrescentou quaisquer dados aos que adiantou, nomeadamente sobre o conteúdo das cápsulas.

Vários elementos da família denunciaram entretanto a suspeita de violência policial devido ao estado em que o jovem foi internado no hospital e testemunhos dos dois amigos que acompanhavam Edson na noite de 15 de junho.

Ginário da Costa contou à agência Lusa o filho foi pulverizado a curta distância na cara com gás lacrimogéneo CS pelos agentes.

Edson foi depois imobilizado no chão por dois polícias, que só após alguns minutos é que se aperceberem de que o português estava inconsciente, tendo então chamado os serviços de emergência.

No hospital, o inchaço visível nos olhos e no pescoço alimentaram a suspeição de que Edson teria sido alvo de excesso de violência, disse o pai, que confessa estar ainda "muito abalado" pelo sucedido.

Entretanto, a mãe de Edson, Manuela Araújo, que vivia em Portugal, morreu subitamente no início de agosto, antes do funeral do filho, que só aconteceu a 1 de setembro.

Foi uma coisa que a gente não estava à espera, dizia todos os dias a mesma coisa sobre a morte do Edson: ‘Porquê?'", lamentou Ginário da Costa.

Na quinta-feira à noite, numa sessão pública de apresentação da campanha, Carson Arthur, elemento da organização Stop Watch, alegou que as operações de controlo e revista de pessoas e carros na rua são "ineficazes e injustas."

Apresentou estatísticas que indicam que os jovens negros são mais visados neste tipo de ações policiais do que cidadãos brancos.

De forma a saber o que se passou naquela noite, vai ser necessário confrontar a polícia não só sobre aquela noite, mas sobre a forma como dirige operações que resultam em mortes desnecessárias. É preciso questionar não só os agentes, mas a instituição inteira", afirmou.

Kevin Blowe, da organização Inquest, acrescentou que muitas mortes derivam da forma como os detidos são seguros pela polícia.

Segundo disse, 25% das mortes durante custódia da polícia são consequência de "interação física excessiva".

Janet e Marcia, irmãs de dois jovens que também morreram durante custódia policial, Christopher Alder (1998) e Sean Rigg (2008), respetivamente, avisaram a família acerca dos obstáculos que vão encontrar por parte da polícia, da IPCC e do Ministério Público.

"Não quero encher-vos de ilusões. Estas pessoas vão mentir-vos. Mas estas mortes só vão acabar quando a polícia for confrontada. Não vos vão dar nada, vocês vão ter de lutar o tempo inteiro", avisou Janet Alder.