A população mundial começa na segunda-feira a "gastar os recursos naturais" do próximo ano, como se estivesse a viver "a crédito", e Portugal está entre os países que mais consomem em relação à capacidade de produção, segundo a Zero.

"Portugal está entre os países do mundo que têm maior défice ambiental", avançou este domingo à agência Lusa Susana Fonseca, da direção da Associação Sistema Terrestre Sustentável - Zero, realçando a necessidade de alterar o estilo de vida, da alimentação à mobilidade, e optar por reduzir o consumo e reutilizar os equipamentos.

O país tem "uma biocapacidade de 1,5 hectares, por habitante, mas nós gastamos cada um, por ano, 3,9 hectares globais, portanto temos de ir buscar recursos a outros países", para poder garantir o estilo de vida e modo de produção, enquanto "há vários países que estão na situação contrária", referiu.

A pegada ecológica portuguesa é 160% acima da sua biocapacidade, colocando Portugal no grupo dos 35 países com maior défice ambiental, concluem os dados analisados pela associação ambientalista.

O indicador, chamado de 'overshoot day' mostra a partir de que momento no ano se começam a gastar recursos que só deveriam ser usados no ano seguinte e "começa-se a viver a crédito cada vez mais cedo".

"Este ano é a 8 de agosto [segunda-feira], no ano passado foi a 13 de agosto e o último ano em que conseguimos, de facto, garantir que o uso de recursos ao longo do ano estava dentro dos limites, em equilíbrio com o planeta, foi em 1970", salientou Susana Fonseca.

Também é feita a análise da pegada ecológica de cada país, per capita, ou seja, quanto cada cidadão necessita para garantir a sua alimentação, mobilidade e tudo o que gasta no quotidiano, valor que é comparado à capacidade nacional para suportar a pegada ecológica dos seus habitantes, ou para fornecer produtos, materiais de construção, ou para fabricar a roupa, assim como para obter os alimentos.

Para Susana Fonseca, um dos fatores importantes em Portugal, que poderia e deveria ser trabalhado a nível político e por cada cidadão, "é a alimentação, procurando seguir as indicações da roda dos alimentos", e consumir as quantidades de proteínas, vegetais, frutas, nas proporções estipuladas.

É que a alimentação tem um peso importante na pegada ecológica de cada cidadão e, por exemplo, produzir leguminosas, em alternativa à proteína animal, "tem um impacto ambiental muito menor e pode fomentar o emprego local ou nacional", acrescentou.

Outra área relevante para reduzir a pegada ecológica é a da mobilidade, relacionada com o dióxido de carbono emitido, principalmente pelos automóveis.

A responsável da Zero defendeu a utilização dos transportes públicos, dizendo que, muitas vezes as pessoas têm ideias erradas sobre a sua capacidade de levar os utentes onde querem e a horas, o que considerou ser "importante desmistificar".

No entanto, admitiu que "há muito a fazer em termos da interligação entre os vários meios de transporte, de horários de bilhética [sistema de venda de bilhetes nos transportes públicos]", além de "ter a coragem política de dar mais espaço ao transporte público".

Trata-se de conseguir uma alteração do paradigma económico, já que "assentamos o dia a dia no usar e deitar fora, quando deviamos apostar em ter menos mas de melhor qualidade", defendeu.

"Vivemos mais de um terço do ano com o cartão de crédito ambiental" e está a surgir a lógica da economia circular, mas que tem de apostar "na redução da quantidade de recursos utilizados, maior reutilização dos equipamentos, da reparação de bens", com impacto no emprego local, resumiu Susana Fonseca.