Artigo atualizado às 11:53

A Associação de Luta Contra o Cancro do Intestino - Europacolon contesta o tipo de rastreio à doença proposto pela Direção-Geral da Saúde, considerando-o ineficaz, inadequado e «enganador» para a população.

«O rastreio oportunístico proposto já existia e era ineficaz. Parece-nos redutor e enganador que se continue a deixar na dependência da boa vontade dos médicos dos cuidados de saúde primários o convite não organizado a que os doentes, que vão à consulta por outra razão, façam o rastreio», defendeu em declarações à agência Lusa o presidente da Europacolon, Vítor Neves.

O responsável considerou como um «ato agressivo e criminoso», «demasiado cruel», que não se faça em Portugal um rastreio organizado de base populacional para o cancro do intestino, à semelhança dos tumores da mama ou do colo do útero.

Vítor Neves lembrou que o cancro do intestino mata em Portugal quase quatro mil pessoas por ano, ao mesmo tempo que surgem oito mil novos casos.

«Isto é os portugueses a continuarem enganados. Fala-se em rastreio, mas não é rastreio nenhum», disse o presidente da Europacolon, referindo-se a uma norma da Direção-Geral da Saúde publicada no final de março.

Para esta associação, que junta doentes e médicos, esta norma apenas reintroduz uma medida que já existe e que não está a funcionar.

«É uma mortalidade avassaladora, uma questão de saúde pública que está a ser insistentemente ignorada pelo ministro da Saúde. Em 2014 morrerem quase quatro mil pessoas por ano por uma doença que é rastreável, já chega, já chega», refere o presidente Europacolon.

O que a associação defende é um rastreio organizado, em que os centros de saúde convocam especificamente os utentes numa determinada faixa etária para realizarem, anualmente, o exame ao sangue oculto nas fezes. Em caso positivo, esses doentes devem fazer colonoscopia de forma imediata.

Caso não seja possível avançar com rastreio de base populacional ao mesmo tempo a nível nacional, o investigador Manuel Sobrinho Simões, que pertence aos órgãos sociais da associação, defende que seja aplicado de forma faseada, segundo uma nota da Europacolon.

Também o médico Daniel Serrão, membro do conselho superior da Europacolon, sugere que avance, numa primeira fase, um rastreio-piloto na zona do Grande Porto, alargando progressivamente de norte para sul.

O presidente da Europacolon sublinha que criar um rastreio de base populacional não vai pesar no orçamento do país, até porque, ao detetar casos de cancro mais cedo, pode gerar-se uma «poupança de milhões» em tratamentos antecipados de doentes.

«Isto não é um problema de dinheiro, é um problema de vontade política», insistiu Vítor Neves, indicando que o preço de um exame de pesquisa de sangue oculto nas fezes é «irrisório».

Diretor rejeita ineficácia dos rastreios

O diretor para o Programa das Doenças Oncológicas refutou hoje as críticas de ineficácia dos rastreios formuladas pela Associação Contra o Cancro do Intestino, garantindo que os exames estão de acordo com as normas validadas internacionalemnte.

Em declarações à Lusa, o diretor nacional para os Programas das Doenças Oncológicas, Nuno Miranda, disse não entender as críticas da Europacolon, salientando que as normas aprovadas estão validadas internacionalmente.

«Não entendo as críticas da Europacolon. O que foi estabelecido foi uma norma de rastreio. Foram aprovadas normas técnicas de realização de rastreio que estão de acordo com as linhas europeias e que estão validadas internacionalmente por uma vasta literatura médica», sustentou.

Nuno Miranda garantiu que os rastreios do colón e do reto estão a ser lançados em diversas regiões do país.

«Estão a ser implementados com alguma dificuldade, mas estão a ser implementados. Não se podem confundir as normas com o rastreio populacional. As normas são técnicas», sublinhou.