A ex-companheira de Filipe Silva, o empresário algarvio acusado de sequestrar a filha, disse esta sexta-feira em tribunal que o pai da menina agiu por desespero, porque a criança lhe terá dito que não queria regressar à Irlanda.

Filipe Silva, que não cumpriu em setembro de 2012 uma decisão judicial de, após passar férias com a criança, entregar a menina à mãe, de nacionalidade irlandesa e a viver então na ilha da Madeira, está acusado de ter sequestrado a filha e de a ter mantido em paradeiro incerto durante cinco meses.

Ouvida esta sexta-feira na primeira sessão do julgamento, a ex-companheira do empresário, que na altura dos factos vivia com o arguido, relatou que, nos dias anteriores à data marcada para o seu regresso à Irlanda, a menina, então com oito anos, chorou e pediu ao pai para não a levar para junto da mãe.

"Ele [Filipe Silva] agarrou na filha e disse 'não chores mais, o pai não te leva para a Irlanda'", contou Ana Isabel Almeida, acrescentando que o ex-companheiro terá ficado "desesperado", sem saber o que fazer, e que acabou por agir "por instinto", não tendo planeado a fuga com antecendência, segundo reporta a Lusa.

O empresário, que esta sexta-feira optou por não prestar declarações, terá então levado a menina para casa de um amigo, no Porto, situação que só teve um desfecho em fevereiro de 2013, quando a criança foi entregue às autoridades pela avó paterna, já depois de Filipe Silva ter sido detido pela Polícia Judiciária.

Antes de decidir não devolver a menina à mãe, em agosto de 2012, o pai interpôs uma providência cautelar para tentar travar a sua ida para a Irlanda, na sequência de uma carta da mãe, Candice Gannon, em que manifestava a sua intenção de passar a residir na Irlanda com a filha de ambos e o atual companheiro, Phillip Gannon.

Ana Isabel Almeida relatou ainda que a mãe da menina não lhe proporcionava uma vida estável, o que se verifica pelo facto, enquanto residiam na Madeira, de a menina, Giselle Candice Kelly Silva, conhecida como Ellie, ter mudado de escola "cinco ou seis vezes".

Antes, tinha sido ouvida outra testemunha de defesa, Luís Calçada Correia, um amigo de longa data de Filipe Silva, que contou que o pai andava preocupado com o facto de a mãe da filha querer levá-la definitivamente para a Irlanda, situação que também não agradaria à menina.

"Conheço bem o Filipe e ele nunca faria nada contra a vontade da filha", contou, referindo ainda que Candice Gannon "não tinha comportamentos normais enquanto mãe", nomeadamente, devido a alguns episódios de consumo excessivo de álcool.

O amigo do empresário, proprietário de uma farmácia em Vilamoura e vizinho do arguido, disse ainda que a menina manifestou, várias vezes, interesse em não perder contacto com o pai e que não queria ir definitivamente para a Irlanda.

Este julgamento já sofreu três adiamentos, dois anteriores por questões processuais ligadas à inquirição da mãe da criança, da menor e do atual companheiro da progenitora, que atualmente residem na Irlanda, e um último devido ao facto de o arguido ter prescindido do seu advogado.

O tribunal de Faro marcou também para 2 de dezembro a inquirição, por teleconferência, a partir da Irlanda, da mãe da criança e da menina, assim como do atual companheiro da progenitora, mas este só no âmbito de um pedido de indemnização cível que foi pedido ao arguido.