A ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues defende que os ‘rankings’ das escolas são “um indicador pobre e redutor”, sem utilidade para avaliar a qualidade do trabalho que estas produzem e que “só servem para angustiar as famílias”.

“Os rankings não servem para identificar problemas nas escolas, não têm essa finalidade. Os ‘rankings’ são baseados na média obtida pelos alunos exames e isso é muito insuficiente, muito pobre, muito redutor, não revela nada sobre as escolas, não revela nenhum problema, não diz nada”, defendeu em declarações à Lusa a ex-ministra e investigadora na área da Educação.

Maria de Lurdes Rodrigues entende que os ‘rankings’ falham no seu objetivo inicial, que é o de informar as famílias sobre o trabalho e qualidade das escolas, para que estas pudessem tomar decisões mais informadas na escolha das escolas para os seus filhos, frisando que até neste ponto há um problema de base, que é o de a maioria das famílias não poder, de facto, escolher uma escola, ficando reduzida ao estabelecimento que existe no seu concelho.

“Acho que os ‘rankings’ só servem para angustiar as famílias. A liberdade de escolha é uma liberdade muito limitada. Se todas as famílias quisessem colocar os filhos nos colégios melhor colocados, ou mesmo nas melhores escolas públicas, não podiam. Os ‘rankings’ têm um efeito muito negativo nas famílias, não as informam mais, angustiam-nas, colocam-nas perante situações que são problemas sem solução”, defendeu a ex-ministra da Educação.

Para Maria de Lurdes Rodrigues se os ‘rankings’ conseguiram cumprir um objetivo foi o de aprofundar “o fosso cada vez maior” entre escolas públicas e escolas privadas, que beneficia as privadas, as únicas que podem selecionar alunos à entrada, escolhendo os que têm melhores notas e que têm origem em contextos socioeconómicos mais favorecidos.

“Poder escolher os bons alunos só reforça a posição no ‘ranking’, não melhora em nada a escola. [Aparecer numa posição cimeira] Revela que têm boas práticas de ensino ou elevada qualidade de ensino? Não, não revela nada disso. Só revela que conseguiram recrutar melhores alunos para a sua escola. […] As escolas bem colocadas nos ‘rankings’ não fazem o trabalho mais difícil, fazem o mais fácil. Têm lá os melhores alunos”, defendeu.

“O que é que distingue uma escola que está em 25.º ou 26.º? Ou mesmo que tenha a posição 100? Entre [a média de] 13,4 e 13,6, por exemplo, existem imensas escolas. O que é que as distingue? Nada. Só significa que numas escolas os alunos obtiveram uma média um bocadinho melhor, noutras um bocadinho pior. Sobre a qualidade do ensino, as estratégias pedagógicas, um conjunto de exigências do serviço de educação, nada sabemos”, acrescentou.

Informação diferente seria a que resultasse de uma avaliação do trabalho das escolas, com base em diversos parâmetros, à semelhança da que introduziu quando fez parte do primeiro Governo de José Sócrates, e que foi fortemente contestada pelos professores.

Para Maria de Lurdes Rodrigues, no atual modelo, os ‘rankings’ servem “para ter aqui uns dias de muita azáfama, de muitos comentários”, mas José Augusto Pacheco, professor catedrático e presidente do Instituto de Educação da Universidade do Minho, reconhece utilidade a estas listagens, não só para as escolas, mas para a formulação de políticas.

Mas, alerta, não podem ser lidos “de forma isolada”, mas apenas em conjunto com outros indicadores da qualidade do trabalho das escolas, como os que constam da avaliação externa dos estabelecimentos, e que têm em conta não apenas os resultados dos alunos, mas a qualidade do serviço educativo prestado e a qualidade da liderança e gestão das escolas.

Considera ainda que a tendência que os ‘rankings’ costumam evidenciar de associação de melhores resultados escolares a melhores contextos socioeconómicos, ao colocar as escolas privadas no topo das tabelas, “é uma visão simplista”, lembrando que, como já foi apontado pelo Conselho Nacional de Educação, há muitas que obtém bons resultados apesar do contexto desfavorável.

“Os rankings têm contribuído para o fosso entre a avaliação que se faz da qualidade do ensino privado e do ensino público. A qualidade está nos dois sistemas. Temos boas escolas públicas como boas escolas privadas. A outra questão é a tendência para a valorização das disciplinas com exames. Esse é o efeito direto dos ‘rankings’. As que não são sujeitas a exames são quase ignoradas ou esquecidas”, disse.

Também a Fenprof está contra  a divulgação dos ‘rankings’ das escolas com base nas médias dos exames.  É “um ritual em desgaste” que simula que procede “de forma séria, pretensamente científica à avaliação das escolas portuguesas”, defendeu a Fenprof em comunicado.

No documento, a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) classifica a divulgação pública destes resultados como “uma tentativa de credibilização do processo”, a qual contesta.

“Trata-se de métodos que não concedem virtude ao que não a tem: esta não é a forma de avaliar escolas, de traduzir o seu rendimento efetivo, de atestar o modo como preparam os seus alunos para a vida. Os resultados dos exames são apenas um de muitos indicadores que expressam a complexa realidade em que vivem as escolas portuguesas”, defende a federação sindical.

A hierarquização das escolas nestas listagens é, do ponto de vista da Fenprof, “abusiva”.

Os ‘rankings’ das escolas com base nos resultados dos alunos do 12.º ano e do 9.º ano nos exames nacionais são hoje divulgados pela comunicação social, que analisam os dados estatísticos disponibilizados pelo Ministério da Educação.