Dezenas de milhares de estudantes de várias universidades do Grande Porto cumpriram esta terça-feira o tradicional cortejo académico pelas ruas da baixa da cidade, entre esmagamentos de cartolas à bengalada e copos de cerveja vazios na calçada.

O cortejo partiu da Rua da Restauração rumo à Câmara do Porto, para a habitual saudação ao reitor, no que para os estudantes abordados pela Lusa constitui sobretudo "um momento emocional", face ao fim de um ciclo, para uns, que é o início de outros.

"As condições em Portugal para a área da investigação estão um bocadinho más", lamentou Tiago Silva, finalista de Bioquímica de 23 anos, admitindo um futuro que passa pela emigração, "o que também é bom", advertiu, considerando "as mais-valias que traz ao currículo profissional".


"É triste pensar que nos formámos no nosso país para ir para fora", desabafou o finalista da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP), considerando apenas que "é a realidade e tem mesmo de ser assim", como reporta a Lusa.


À sombra de um boné com suporte para duas latas de cerveja unidas por um tubo que desembocava numa palhinha, Pedro Gonçalves aprecia de tal forma o cortejo académico que volta todos os anos, apesar de já se ter formado em Engenharia de Redes.

Acompanha, portanto, os alunos da Faculdade de Ciências da UP no sentido de "apoiá-los nesta luta, para conseguirem acabar o curso" e no âmbito de um grupo que criou enquanto estudava que "jurou" apoiar estudantes no decorrer e após a graduação.

"Foram os melhores anos da minha vida", confessou à Lusa, frisando que enquanto profissional, será um exemplo de que a vida académica vale a pena, apesar do débil mercado de trabalho.

"Se eu consegui, eles também hão de conseguir", incentivou, para voltar à bebida e bengaladas.

Para Carlos Santos, finalista de Ciências, há que "ser otimista, apesar do estado em que o país está e de não estar fácil para ninguém arranjar emprego." Estudar enquanto as oportunidades de emprego escasseavam foi "frustrante" para o finalista, sobretudo ao constatar ao longo do curso que o esforço do estudo "pode não ser recompensado".

"Mas há que lutar e, se tiver que ir para fora, pois assim terá de ser", asseverou.

Ao 23º ano de vida e sexto de Medicina, José Costa constata que "o mercado de trabalho que existe hoje em dia não é o mesmo de há seis anos", ressalvando que devido ao curso que agora termina pode classificar-se enquanto "privilegiado, face às condições com que outros estudantes se defrontam".

Questionado quanto à motivação para ingressar no mundo do trabalho enquanto outros começam o ciclo que iniciou há seis anos, José Costa decidiu responder "com uma frase muito bonita, dita há milhares de anos no Japão".

"As flores que caem não desejam partir e eu, mais frustrado que as flores, que hei de fazer, senão aceitar o meu destino?", declamou, para voltar aos cânticos que exultavam o curso de Medicina e a vida académica no Hospital de São João.