A intenção do Governo de vender a coleção de obras de Joan Miró foi um «erro em que se insistiu durante muito tempo» e que «se voltou contra o próprio país», afirmou à agência Lusa o historiador de arte Pedro Lapa.

Num comentário à decisão da Christie's, que cancelou o leilão de obras do pintor catalão, que pertenceu ao antigo Banco Português de Negócios (ex-BPN), Pedro Lapa considerou «um erro» todo o processo de venda das 85 obras, e que estas deviam ser «imediatamente» classificadas.

Horas antes de se realizar o leilão em Londres, a leiloeira Christie's cancelou a venda das obras de arte, por causa de uma «disputa nos tribunais portugueses», na qual «não é parte interessada».

O leilão, que deveria decorrer hoje e quarta-feira, foi cancelado no dia em que o Tribunal Administrativo de Lisboa rejeitou a providência cautelar apresentada pelo Ministério Público para suspender a venda das obras de Joan Miró.

Para Pedro Lapa, diretor artístico do Museu Berardo, disse que «eventualmente o leilão agora correria o risco da sua eficácia em termos comerciais, uma vez que esta situação de suspensão ou não suspensão não seria a mais propícia para atrair os compradores».

Pedro Lapa defende agora a classificação das obras por parte da Direção Geral do Património Cultural: «São um bem que nós não devemos perder. São importantes para o país, são formadoras, dão ao país um património que podemos apreciar diretamente».

«São ainda um forte potencial quando se pensa na oferta cultural que o país tem para quem nos visita. Há todas as razões para segurar isto aqui e não precipitar a situação. Não se deve olhar para isto em cima do joelho. A longo prazo o valor vai ser muito maior do que aquele que algumas vez se poderia obter num leilão», argumentou Pedro Lapa.

Decisão era «a única decente»

O responsável pela petição «online» a favor da manutenção em Portugal das obras de Joan Miró na posse do Estado, o galerista Carlos Cabral Nunes, comentou hoje que a decisão da Christie's foi «a única decente».

A petição «Manutenção em Portugal das obras de Miró», lançada pelos responsáveis da Casa da Liberdade Mário Cesariny, em Lisboa, no início de janeiro, recolheu 9.300 assinaturas até hoje.

Contactado pela agência Lusa por «email», Carlos Cabral Nunes, que se encontra na Índia para participar com a Perve Galeria numa feira de arte, congratulou-se com a decisão da leiloeira.

«Tinha a esperança que a Christie's, a maior leiloeira do mundo, acabasse por ter a única decisão decente, a de retirar as obras do leilão, porque havia ilegalidades comprovadas», considerou o galerista.

Cabral Nunes disse ainda compreender a decisão para não arriscar a credibilidade da leiloeira junto dos clientes, não se sentindo segura com a venda.

«Eles correriam o risco de se manchar e arriscar isso, colocando em causa um prestígio alcançado ao longo de séculos, era algo que para mim não fazia sentido, mesmo tratando-se de milhões de euros em jogo», comentou ainda.

Carlos Cabral Nunes e um conjunto de artistas ligados à Casa da Liberdade foram os primeiros a levantar o caso das obras de Miró, lançando a petição contra a sua saída do país.

«Espero que a incúria com que este caso foi tratado não se repita, nem em Portugal nem em qualquer outro sítio», disse ainda o galerista.