Portugal precisa de mais camas de internamento psiquiátrico para crianças e jovens, dado existirem apenas 24 para todo o país, alerta o relatório «Portugal – Saúde Mental em Números 2014».

O documento aponta para a necessidade de mais camas no setor público destinadas ao grupo de crianças e jovens, uma vez que existem apenas 10 para a zona Norte e 14 para a zona de Lisboa e Vale do Tejo.

«Tendo em conta a escassez de camas nas duas estruturas de psiquiatria da infância e adolescência com unidades de internamento», o relatório refere que muitos casos acabam por ser internados noutras estruturas, nomeadamente em serviços pediátricos e psiquiátricos.

Relativamente às duas unidades especializadas existentes no país (uma em Lisboa e outra no Porto), «verifica-se, em ambas, uma alarmante incapacidade das estruturas da comunidade (quer famílias, quer instituições) em gerirem adequadamente os casos mais sensíveis, endossando-os mais frequentemente aos serviços de urgência com frequente pedido de internamento».

O Ministério da Saúde defendeu esta quinta-feira a criação de enfermarias para adolescentes com perturbações psiquiátricas, evitando o seu internamento junto de adultos, como solução transitória até serem criadas mais unidades específicas para jovens na área da saúde mental.

Durante a apresentação pública do relatório «Portugal – Saúde Mental em Números 2014», foi manifesta a preocupação dos profissionais de saúde mental com a falta de respostas para a infância e a adolescência, quer ao nível de recursos humanos como físicos.

A falta de camas para internamento, a existência de apenas duas unidades de saúde específicas e a escassez de médicos direcionados para esta problemática da saúde mental foram os temas que mais preocupação e debate suscitaram.

O diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, Daniel Sampaio, considerou que a situação é «dramática» e «exige uma tomada de decisão», em que a «resposta ao nível das camas é determinante».

O psiquiatra alertou que os jovens são internados em alas psiquiátricas de adultos, o que cria problemas aos adolescentes e aos serviços.

Esta preocupação foi partilhada por outros profissionais na sala, que afirmaram não só assistir a um aumento do número de adolescentes em unidades de adultos, como alertaram para os «imensos riscos» que tal circunstância acarreta.

A necessidade de formar mais pedopsiquiatras também foi amplamente referida, embora tenha sido igualmente reconhecido que para tal é preciso que existam mais centros para a infância e a adolescência.

Respondendo ao repto lançado pelos profissionais de saúde, o secretário de Estado Leal da Costa reconheceu que a resposta em ambulatório ainda é insuficiente e que «o internamento está em situação paupérrima e de depauperamento».

Para o governante, a criação de uma unidade de internamento em Coimbra, para dar resposta à zona Centro, é necessária e urgente, mas não se comprometeu com prazos, afirmando que «em alguns momentos o ótimo é inimigo do bom».

«Temos que encontrar algumas soluções enquanto não conseguimos chegar ao ótimo. Os internamentos em unidades de adultos é obviamente uma péssima solução em que não podemos continuar a insistir», afirmou.

Como tal, lançou um desafio aos especialistas, no sentido da «criação de enfermarias próprias para adolescentes». «Estou a pensar numa solução transitória, em vez do internamento em unidades de adultos», sublinhou Leal da Costa.