Os professores inscritos para realizar a Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos (PACC) na escola Carolina Michaelis, no Porto, embora «contrariados», compareceram para cumprir «uma imposição» do Ministério da Educação, que consideraram «indigna e inútil».
 
«Vou realizar porque fui obrigada. É uma imposição», disse à agência Lusa, uma professora de 1.º ciclo de Educação Especial, Simone Alcântara, que contou ter dado aulas em agrupamentos de Peso da Régua, Porto e Matosinhos, pelo que «sente que já deu provas da sua capacidade para lecionar».
 
Num concelho em que, a 22 de julho, cerca de 20 manifestantes invadiram a escola Rodrigues de Freitas para tentar impedir a PACC, só se afastando após intervenção policial, estavam mobilizados contingentes da PSP para vários estabelecimentos de ensino mas, na Carolina Michaelis, a entrada para a prova decorreu com vozes «contra», mas sem incidentes.
 
Em «solidariedade com os colegas» e envergando uma camisola em que se lia «cRato rua! A escola não é tua!», um dos responsáveis do Movimento Boicote&Cerco, Pedro Monteiro, adjetivou a PACC de «inútil e absolutamente indigna».
 
O também professor de História disse que o movimento foi constituído «espontaneamente» e que hoje o dia seria dedicado ao esclarecimento da opinião pública negando que os docentes «não queiram ser avaliados».
 
« Esta prova é uma manobra de diversão para desviar as atenções do que de facto está a acontecer: a destruição da escola pública. Faltam professores, faltam funcionários. Vimos mostrar o nosso total repúdio. É uma tentativa infame de eliminar professores», afirmou Pedro Monteiro.
 
Cerca de dez minutos antes do início da PACC, quando os portões encerraram, os funcionários da escola confirmaram aos jornalistas que, de 45 inscritos, faltavam entrar dois professores.
 
Alguns professores, militantes do Bloco de Esquerda, também protestaram junto à escola Avelar Brotero, em Coimbra, contra a realização da prova de avaliação por ser «absolutamente inútil».


 
Militantes do BE distribuíram alguns folhetos contra a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) a professores que entravam na escola e empunharam alguns cartazes onde se podia ler «Não à PACC».
 
«A PACC não tem credibilidade», sendo um «ataque aos professores», ao não avaliar «o trabalho já feito pelos docentes contratados», criticou o militante do Bloco de Esquerda e professor, António José André.
 
O professor, que estava destacado para vigiar na escola Martim de Freitas, em Coimbra, decidiu fazer greve, recusando-se «a participar no processo».
 
Na escola secundária Avelar Brotero, estiveram quatro professores convocados para vigiar a prova, num universo de 140, sendo que dos 30 docentes que iam realizar a prova naquela escola, quatro faltaram.
 
Não foi o caso de Joana Silva, de 27 anos, com 416 dias de tempo de serviço, que se deslocou à Avelar Brotero para realizar a prova.  Apesar de ter ido, a docente considerou que a prova «não é correta», tendo ido realizá-la «contrariada».
 
A escola secundária Avelar Brotero foi uma das cinco escolas onde se realizou a PACC hoje, no concelho de Coimbra, tendo sido feita também na escola Martim de Freitas, Eugénio de Castro, Dona Maria e Jaime Cortesão.
 
Na escola Martim de Freitas esteve presente o Sindicato dos Professores da Região Centro e na escola Eugénio de Castro estiveram elementos do movimento Boicote&Cerco.
 
Sem ruído, protestos ou boicotes, as poucas dezenas de professores contratados inscritos para fazer a prova de avaliação na secundária Manuel da Maia, em Lisboa, entraram à hora marcada para fazer um exame que alguns consideram «ridículo».
 
Patrícia Vieira não fez a prova o ano passado. Por opção, nem se inscreveu: «Considero-a ridícula, mas por causa disso fiquei de fora dos concursos e se quero dar aulas no público tenho que a fazer».
 
A esta professora de inglês, que este ano está a dar aulas no ensino particular e cooperativo, faltam apenas 150 dias para completar os cinco anos de serviço que a libertariam da obrigação de fazer a Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos (PACC), apesar de já ter concluído o curso, que lhe atribuiu a habilitação profissional para dar aulas, há 10 anos.
 
Os menos de 400 professores que fizeram a PACC no ano passado e que conseguiram colocação nas escolas este ano são um número que não dão a Patrícia Vieira muita esperança. A hipótese de colocação no ensino público, que a própria considera remota, é o novo grupo de recrutamento de inglês para o 1.º ciclo, para o qual pretende concorrer.
 
Marília Santos, professora do 1.º ciclo, licenciada e com duas pós-graduações, não fez a prova no ano passado, em nenhuma das duas datas em que ela decorreu, devido aos boicotes nas escolas do Barreiro onde estava inscrita. Ainda assim, garante, não é contra os boicotes. Hoje entrou na escola secundária Manuel da Maia, em Campo de Ourique, sem problemas, num ambiente calmo e silencioso, mas vigiado de perto pela polícia, com vários agentes da PSP perto da entrada do estabelecimento.


 
« O ministro da Educação cuidou de tudo. Fosse ele tão cuidadoso no funcionamento das escolas e o ano letivo teria começado bem. Isto é uma questão de prioridades. E para o ministro da Educação a prioridade é humilhar os professores submetendo-os a uma prova absolutamente desprestigiante de quem a promove», disse o secretário-geral da Federação Nacional de Professores (Fenprof), Mário Nogueira, à porta da escola, sublinhando «a tristeza» de quem ia fazer exame.
 
A Fenprof foi uma das sete organizações sindicais que convocou para hoje uma greve de professores a todo o serviço à PACC, com início marcado para as 15:00.
 
Mário Nogueira disse que este ano o Ministério da Educação «soube escolher» as escolas onde iria decorrer a PACC, e que as escolas também souberam escolher os professores que convocaram para vigiar os colegas em exame, para minimizar os efeitos da greve: «O ministério foi cuidadoso na escolha e processo de seleção».
 
Ainda assim, disse acreditar que a o impacto da greve «vai ser forte», mesmo admitindo que é possível que a PACC decorra hoje em todas as salas de todas as escolas para onde estava marcada.
 
O deputado do Bloco de Esquerda e membro da comissão parlamentar de Educação Luís Fazenda marcou presença junto à escola, tendo afirmado que a prova é «um cadáver muito elucidativo do que foi a política de Nuno Crato».
 
Referindo-se aos professores que se preparavam para fazer a prova, que considerou «algumas das vítimas» da política do ministério, disse que  «bastava olhar para a sua cara para ver a sua humilhação».
 
Há 2.861 professores inscritos na PACC, um número muito abaixo dos 13.500 que se inscreveram em 2013. Este ano a prova decorre em cerca de 80 escolas de todo o país.