Uma auditoria confidencial ao Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) foi pedida em 2014 pelo Governo então liderado por Pedro Passos Coelho. Denunciava já fragilidades, que terão vindo à tona no recente incêndio trágico de Pedrógão Grande.

O documento a que a TVI teve acesso, datado de 8 de agosto de 2014, propunha mesmo medidas para serem implementadas a curto e a médio prazo. A verdade é que nada foi feito desde então. As propostas constantes na auditoria pedida pelo então ministro Miguel Macedo não chegaram a sair do papel.

Na prática, já nessa altura se sabia que o sistema que deveria ligar todos os organismos de socorro do país, não ligava coisa nenhuma.

O relatório punha mesmo a nu, as fragilidades de uma rede de comunicações que, pela segunda vez, falhou em Pedrogão Grande, já depois de ter revelado problemas durante o temporal de 2014.

Falhas denunciadas

Na auditoria, várias falhas eram apontadas ao SIRESP. A começar pela chamada resilência da rede, ou seja, a capacidade que o sistema deveria ter para continuar a funcionar, mesmo quando, por exemplo, os cabos de fibra otica são destruídos pelo fogo. Algo que terá acontecido em Pedrogão Grande

Outro dos problemas apontados realcionava-se com falhas na cobertura de rede em Leiria, precisamente o distrito a que pertence Pedrogão Grande.

Além das chamadas “zonas sombra”, outra das lacunas apontadas prendia-se com a autonomia energética: as baterias nunca deveriam ter um duração inferior a 20 horas nos locais mais críticos.

Soluções esquecidas

O relatório encomendado na sequência do temporal que assolou o país no início de 2014 aconselhava a montagem de um sistema de georeferenciação que deveria permitir a localização das viaturas no terreno. Algo imprescindivel, por exemplo, para retirar populações e evacuar localidades.

O documento a que a TVI teve acesso estimava que o investimento nos melhoramentos do SIRESP iria custar, nos primeiros dois anos, cerca de 1,4 milhões de euros. Já numa fae mais avançada, a factura poderia subir até aos 11 milhões de euros.

Mudanças em véspera de incêndios

A falta de comando, coordenação e planeamento por parte da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) é apontada como uma das condições que contribuiu para explicar em parte a tragédia de Pedrogão Grande.

Carlos Almeida Lopes, comandante do quadro de honra dos Bombeiros de Leiria, revela que teve uma reunião com o secretário de Estado da Administração Interna, em março. Aí terá mesmo questionado Jorge Gomes sobre as mudanças feitas na estrutura da Proteção Civil, em véspera da chamada época de incêndios.

Em entrevista à TVI, Carlos Almeida Lopes assegura ter alertado o secretário de Estado para uma possível tragédia como a que veio a acontecer em Pedrógão Grande.

Não foi ouvido. A verdade é que com este governo, praticamente toda a estrutura de topo da ANPC foi substituída: 20 dos 36 comandantes distritais mudaram, dos quais, 17 foram substituídos em abril. Ou seja,  a dois meses do inicio da época dos incêndios.

A TVI procurou obter um esclarecimento da parte do secretário de Estado da Administração Interna, mas até ao momento ainda não o obteve.