Quase metade das prostitutas em Portugal (49%) sofre de doença mental, sendo que 16% dessas mulheres não teve qualquer tipo de acompanhamento, conclui um projeto de doutoramento, divulgado esta quarta-feira em Coimbra.

Cerca de 25% das prostitutas diagnosticadas necessitaram de internamento e «apenas 38% mantém acompanhamento» por parte de um técnico de saúde, disse Alexandre Teixeira, doutorando da Faculdade de Psicologia do Porto, que está a realizar um estudo sobre saúde mental em mulheres que se prostituem em Portugal.

Das mulheres diagnosticadas, foi identificada depressão a quase 60%, ansiedade a 20% e doença bipolar a cerca de 5% das prostitutas, divulgou o investigador, que falava durante as I Jornadas Científicas sobre Trabalho Sexual, que decorreram esta quarta-feira no Centro de Estudos Sociais, em Coimbra.

«O acompanhamento é um fator protetor», salientou, referindo que quase 20% dos diagnósticos da doença mental foram feitos «nos últimos 12 meses» e 27,4% feitos há mais de dez anos.

O projeto de investigação envolveu questionários presenciais a 177 mulheres que trabalham no interior e 114 na rua, distribuindo-se por 110 mulheres no Porto, 55 em Coimbra e 126 em Lisboa.

A média de idades das mulheres entrevistadas é de 38,5 anos, mais de metade são portuguesas, 32% brasileiras e cerca de 7% naturais de países africanos de língua oficial portuguesa.

Metade são solteiras, 72% têm filhos, 10% têm formação superior e 27% o ensino secundário.

O estudo, que também aborda os comportamentos suicidários das mulheres que se prostituem em Portugal, conclui ainda que 28% das entrevistadas já se tentaram suicidar, sendo que dessas 31% fizeram três ou mais tentativas, explanou Alexandre Teixeira.

Cerca de 20% tentaram suicidar-se nos últimos 12 meses e quase metade entre há um e quatro anos, referiu, tendo 23% das prostitutas contado que já assistiram a um suicídio ou uma tentativa de suicídio nas suas famílias.

Cecília Eira, membro do programa «AutoEstima», da Administração Regional de Saúde do Norte, também presente nas jornadas, salientou que, com a crise, «há mais mulheres na rua e que nunca tinham estado nesta atividade».

Através do programa, que só em 2013 realizou «5.650 contactos», Cecília Eira observou que aumentaram também «as mulheres que trabalham na rua», em detrimento da atividade no interior de casas ou outros estabelecimentos, havendo ainda «mulheres mais envelhecidas», «mais mulheres portuguesas» e uma «percentagem maior de casadas».

As Jornadas Científicas assinalaram esta quarta-feira o Dia Internacional Contra a Violência Sobre Trabalhadores do Sexo, sendo organizadas pela Rede sobre Trabalho Sexual (RTS), pelo Centro de Estudos Sociais (CES) e pela associação Não te Prives: Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais.