A associação «O Ninho», que ajuda mulheres prostitutas, acusou esta quarta-feira o Estado de estar a obrigar as instituições a trabalharem com cada vez menos recursos, ao mesmo tempo que aumenta o número de portuguesas que se prostitui.

«O Ninho» tem a decorrer o seminário «Dar voz ao silêncio», sobre o tráfico de pessoas, onde foram apresentados os resultados de um ano e meio de intervenção junto de mulheres que se prostituem, no âmbito do projeto «Falar claramente sobre violência de género».

Segundo o gestor do projeto, «o Estado deixa a missão de prevenção e de reinserção social às associações, mas cada vez com menos recursos».

Pedro Araújo disse mesmo que «aos traficantes dão armas», enquanto às associações que trabalham no terreno com as mulheres que se prostituem ou que são traficadas tiram recursos.

«A nós tiram-nos orçamentos para fazer estes projetos e tiram-nos orçamentos para os técnicos continuarem a fazer o seu trabalho», disse, perante uma plateia de várias dezenas de pessoas presentes no Fórum Lisboa.

Na sequência do trabalho realizado durante mais de um ano e meio, Pedro Araújo adiantou que a associação «O Ninho» deu conta que aumentou o número de mulheres portuguesas que se prostituem.

O responsável apontou terem identificado dois grupos etários, um entre os 18 e os 30 anos, onde as mulheres são oriundas de meios familiares desestruturados, são analfabetas ou têm baixa escolaridade e viveram uma infância complicada.

Por outro lado, entre as mulheres com idade entre os 45 e os 70 anos, os motivos que as levam a prostituir-se estão relacionados com o desemprego, dividas e a impossibilidade de arranjar um emprego por causa da idade.

Pedro Araújo adiantou que, na sequência deste trabalho, a mulher mais nova que identificaram tinha 18 anos, enquanto a mais velha tinha 70 anos.

«É a prova de que a prostituição não escolhe idades», apontou.

Já no que diz respeito ao tráfico de seres humanos, o responsável de «O Ninho» disse terem dado conta da existência de várias redes, das quais destacou as romenas e as oriundas de países africanos.

Em relação às romenas, estão em causa mulheres com escolaridade entre o 9.º e o 12.º anos, que ficam pouco tempo em Portugal e que vem de famílias muito pobres, muitas vezes alvo das ameaças dos traficantes.

Já em relação às africanas, maioritariamente oriundas do Gana e da Nigéria, as idades variam entre os 25 e os 52 anos, há uma prevalência muito grande de analfabetismo, vêm de famílias muito pobres e acabam por ficar muito tempo em Portugal.

Como conclusão, o gestor do projeto «Falar claramente sobre violência de género disse que todas as mulheres acompanhadas pelo ninho vêm de bolsas de pobreza».

«Têm histórias dramáticas e violentas para contar, têm traumas irreversíveis, existem histórias que configuram tráfico de seres humanos e as mulheres traficadas não querem colaborar com a polícia», adiantou.

Pedro Araújo disse ainda que «não há mulheres prostituídas felizes» e sublinhou que a prostituição não se reduz ao ato isolado de uma pessoa, mas envolvendo a tríade pessoas prostituídas, proxenetas e clientes.