Falar português é uma mais-valia no Luxemburgo e «não um factor de discriminação», e há mesmo luxemburgueses e outros estrangeiros que estão a aprender a língua, considerando-a uma vantagem profissional, disse à Lusa um professor.

Anúncio a pedir candidatos que falem português questionado no Parlamento do Luxemburgo

O professor Carlos Pato, que preside também o Sindicato dos Professores no Estrangeiro, comentava assim o caso de um anúncio de emprego a pedir candidatos que falassem português, considerado discriminatório por um deputado do partido nacionalista ADR, que questionou o caso no Parlamento.

«A ideia que me assaltou de imediato é que o senhor está a ver o filme ao contrário. Não há aqui nenhuma discriminação, há sim uma mais-valia e uma vantagem em falar português. Até nos bancos sentem que o facto de os funcionários falarem português é uma vantagem, por causa da grande população portuguesa no país», defendeu o docente, frisando que «há muitos estrangeiros e luxemburgueses que vão aprender português para poderem falar com os clientes e utentes».

«Já tive médicos luxemburgueses que vieram aprender português porque tinham muitos clientes portugueses, e mesmo o pessoal administrativo aprende português para poder comunicar mais facilmente com os portugueses. Este ano tenho pessoal auxiliar de centros de dia para crianças nas minhas aulas e professores do ensino pré-escolar, mas já tive também enfermeiros e advogados», disse à Lusa Carlos Pato, que dá cursos nocturnos de Português na capital luxemburguesa.

Além das aulas na capital, patrocinadas pelo Ministério da Educação do Luxemburgo,«"há um grande número de autarquias por todo o país que organizam cursos de português para estrangeiros, porque consideram que é uma vantagem, dada a grande população de origem portuguesa», sublinhou Carlos Pato, que acusa o ADR de sectarismo.

«O português é a sexta língua mais falada no mundo, e não se pode secundarizar desta forma uma língua com esta importância. Isto é uma forma de não querer dar o real valor aos falantes da língua portuguesa, ignorando o impacto económico dos 110 mil portugueses que vivem no país e pagam aqui impostos, e de todos os que querem aprender português», defendeu.

«Ele [o deputado do ADR] é que está a discriminar a população portuguesa pela negativa», acrescentou o responsável sindical.

O partido ADR considerou «discriminatório» um anúncio publicado por uma associação de apoio a crianças, jovens e famílias pedindo candidatos para uma vaga de educador que falassem português, além das três línguas oficiais do país (francês, alemão e luxemburguês).

Na questão parlamentar, o ADR perguntava ao ministro da Educação do Luxemburgo se «considerava normal» que uma associação subsidiada pelo Estado exigisse o conhecimento de uma língua que não faz parte dos idiomas oficiais do país, acusando-a de «favorecer» os falantes de língua portuguesa e de não contribuir para a integração dos estrangeiros.

Na resposta, o ministro defendeu que «neste caso concreto não se trata[va] de familiarizar as pessoas com as línguas oficiais do país ou de facilitar a sua integração, mas de as compreender e ajudar».

Conhecido pelas posições nacionalistas, o ADR foi contra a atribuição do direito de voto aos estrangeiros nas eleições autárquicas, aprovada em 1999, votou contra a lei que aprovou a dupla nacionalidade em 2008 (uma reivindicação antiga da comunidade portuguesa no Luxemburgo), e opõe-se aos cursos integrados de língua materna no ensino luxemburguês, que incluem aulas de língua portuguesa para os emigrantes lusófonos.