«Uma senhora, já mais velha, pediu-me para escrever uma carta para o neto, que tem apenas 18 meses. Queria deixar-lhe uma mensagem para quando ele for crescido, caso ela já não esteja cá para lhe dizer. Queria deixar escrito a memória da avó que o amava e o guardou, para sempre, no coração». Patrícia Cardoso quis devolver às palavras a importância que têm na vida de todas as pessoas, como a história desta avó ilustra. «Nem toda a gente tem de saber escrever uma carta, nem toda a gente tem jeito, mas toda a gente gosta de transmitir carinho e afeto». As Cartas de Sapana pretendem que as palavras deixem de se resumir a abreviaturas de SMS.

Querem encurtar distâncias. Físicas e (in)temporais. «Não é um post, no Facebook. Não é uma mensagem no email ou no telemóvel. É uma carta que chega a um endereço, que tem de ser aberta, para ser lida». A designação do projeto não foi escolhida ao acaso. Com Sapana, todos os pormenores contam. Nada, nas palavras, é adorno. 

«Transmite o meu cunho pessoal. É o meu nome nepalês. Em 2009, vivi durante um mês numa aldeia do Nepal, com uma família local. A dificuldade em pronunciarem os nossos nomes ocidentais fez com que atribuíssem outros. O meu ficou Sapana, que é sonho. E isto é um sonho para mim»



Licenciada em Jornalismo, e com experiência profissional na área e em produção de televisão, por cá e pelo Brasil, Patrícia Cardoso contou com o apoio de amigos para a criação do logótipo, com um elefante no centro, também a lembrar o Nepal, e para a criação de todo o conceito.
 
A Internet surge, aqui, como intermediária. Através de uma mensagem no Facebook ou um contacto de e-mail (cartasdesapana@gmail.com), os interessados em oferecer «as palavras mais bonitas», como carinhosamente Patrícia lhes chama, precisam apenas de prestar pequenas informações sobre a pessoa a quem querem dirigir a carta, o motivo (dar os parabéns, transmitir saudades, gratidão, ou outra ocasião especial) e três ou quatro momentos marcantes na relação com o destinatário.
 
O próximo passo é escrever um rascunho, que envia para aprovação, fazendo questão que o remetente sinta que a carta está «o mais personalizada possível». As palavras seguem, depois, por correio, com o selo Sapana. «Uma pessoa voltou. Pediu-me três cartas. É comovente perceber que elas tocam as duas pessoas, quem envia e quem recebe». 
 
Os pedidos chegam-lhe de Portugal, do Luxemburgo, do Canadá, do Brasil. Há portugueses em todos os cantos do mundo e Saudade é uma palavra que se escreve numa só língua. O valor de cada carta: 15 euros (+ portes no caso dos pedidos internacionais).
 
À máquina de escrever, «O Que Te Quero Dizer»
 
André Pereira anda pelas ruas, de máquina de escrever e papel nas mãos. O projeto «O Que Te Quero Dizer» desafia as pessoas a sentarem-se em frente a este escritor e criativo, também licenciado em Comunicação Social, que já escreveu textos para Herman José e para o programa 5 para a Meia Noite.
 
Atualmente desempregado, o trabalho pode ter fugido, mas as palavras estão sempre com ele. A ideia surgiu de outra que pôs em prática, no último emprego que teve, numa agência de publicidade: dos retratos escritos, «fazendo mais ou menos a junção entre caricaturista e desenhador, mas em vez dos traços, escrevia um pequeno parágrafo, olhando apenas para a pessoa», passou para as pequenas cartas escritas em máquina de escrever, por essas livrarias fora. «A pessoa senta-se à minha frente, durante 15 minutos. Só preciso de saber o nome. Olho para ela e penso no que gostava de lhe dizer». Depois, o ritual: dobra a carta, coloca-a no envelope, escreve também à máquina o seu nome e o do destinatário.


 
Termina com o carimbo «O que te quero dizer», entregando a carta em mãos, à pessoa que está ali, a menos de um metro, à sua frente. E desperta sorrisos, depois do inevitável constrangimento de quem estava a sentir-se por ele observado ao pormenor.
 
Um senhor «muito grande», com dois metros de altura, 50 ou 60 anos, começou a chorar depois de ler a carta. Uma figura imponente, que se revelou tão sensível:

«Disse que era assim que ele se via e era assim que gostava que as pessoas o vissem a ele. Estava muito satisfeito e emocionado pela forma como escrevi aquelas palavras»
 

É a «provocar emoções nas pessoas» que André se sente realizado, como em todos os trabalhos que desenvolveu até agora. Não é num quarto de hora que capta a essência de alguém, nem pretende ser «uma Maya da vida», graceja. «Mas gosto de olhar para a pessoa e pensar o que é que ela faz, quem é, o que é que eu gostava de lhe dizer».
 
A máquina de escrever Remington, de 1935, é um símbolo antigo que aproxima gerações e confere ainda maior «sentimentalismo» às palavras: «As crianças chegam a perguntar se é um robot e ficam impressionadas porque nunca viram uma; os mais velhos ficam com saudades de ouvir o barulho das teclas e dos tempos em que a utilizavam». Sentimentos que fazem os cinco euros da carta de André parecerem simbólicos.
 
Com o Natal à porta, escreve também à distância (andre.oquetequerodizer@gmail.com), mediante o envio de uma fotografia por quem quer receber uma carta sua. Se essa pessoa quiser, ela própria, enviar uma carta para um ente querido, será escrita por André, sentida por Vanessa, enviada para Maria, exemplifica. Aos cinco euros, acrescem os portes de envio, nestes casos. Também autor do livro de contos «Pequenas Histórias de Muitas Vidas», André Pereira tem na escrita uma companhia diária.
 
A sua vida, ou a de quem gosta, dava um livro?
 
Há quem costume citar a expressão «a minha vida dava um filme». Por que não «a minha vida dava um livro»? O ADN Memória cuida do assunto. Ana Rita Madruga escreve histórias de família. Biografias de alguém especial que se quer homenagear. Histórias de pessoas, com vidas cheias. Também jornalista e colaboradora de uma empresa de vídeo, está quase a 100% dedicada a este projeto, que tem o seu prefácio em 2011, e que envolve um pormenorizado método de pesquisa e investigação.
 
Encontrámo-la em Munique, numa conversa por Skype, onde está precisamente a recolher informação para o seu sexto livro, há quase um mês. O trabalho tem-lhe permitido conhecer pessoas «maravilhosas e inspiradoras».
 
Como é que tudo começou? «Sempre colaborei com uma produtora de vídeo e administradora dessa produtora já me conhecia há vários anos. Pediu-me para escrever a biografia do sogro dela». Foi em 2011 e o homenageado tinha 83 anos. Ainda vive para contá-la, mas história ficará escrita para a eternidade.
 

«Tem agora 86 anos e é uma pessoa muito ativa, muito jovem. Nasceu em Montalegre,  com origens pobres. É um self made man. Seis filhos, muito dedicado à família. E tem uma componente religiosa muito interessante. É muito dedicado a causas sociais e sempre educou os filhos para também serem assim»

 
O primeiro resultado do ADN Memória foi gratificante. «Adorou. Estava muito empenhado no livro. Aos 83 anos, ter um projeto destes é algo muito saboroso». Teve de trabalhar, ver fotografias, lembrar-se de tudo.


 
Ana Rita Madruga (adndamemoria@gmail.com) explicou que o primeiro passo é começar pelas entrevistas ao biografado, num total de, pelo menos, 15 horas. Depois vêm as entrevistas a familiares, colegas, amigos. No meio disto tudo, vai tentando recolher fotografias, recortes de jornais, registos sonoros, se houver. Seguem-se três meses de mergulho na escrita.
 
O último livro é de receitas. Com uma história deliciosa. «Uma senhora que já faleceu e que deixou as suas receitas para a filha. A filha quer oferecê-las às netas e aos netos, que entretanto já tem. Estamos a recolher todas as receitas de doce que a senhora deixou e incluímos uma história dela. O livro vai ser oferecido como prenda de Natal».
 
Fala no plural porque, na prática, conta com a ajuda das pessoas em causa e, também, de um criativo com quem trabalha. O próximo passo é adicionar vertentes mais tecnológicas ao projeto, dependendo das vivências dos protagonistas. O livro, esse, sempre como ponto de partida.
 
Sempre as palavras no centro da vida. Do contorno das letras nos rascunhos à mão, passando às palavras a comporem-se, seja no papel, na máquina de escrever ou no computador, tudo isto faz lembrar uma melodia de piano, que culmina nas palavras lidas, nas palavras ditas, nas palavras sentidas. Entregues em mãos, ou na caixa do correio. Dito por quem já recebeu: «Bom dia, Sapana. Esta carta tem um grande defeito. O facto de ter fim. Já a li muitas vezes, com uma sensação de abraço, no coração».