O Presidente francês, François Hollande felicitou o compatriota Patrick Modiano pela conquista do prémio Nobel da Literatura 2014, atribuído esta quinta-feira pela Academia Sueca em Estocolmo.



«Parabéns ao Patrick Modiano, este prémio Nobel consagra um trabalho que explora as subtilezas da memória e da complexidade da identidade», escreveu Hollande no Twitter.

Já no panorama nacional, o editor Francisco Vale, o primeiro em Portugal a publicar uma obra de Patrick Modiano, considerou o prémio foi «merecido», mas é evidente que umas boas dezenas de autores mereciam igualmente o Nobel, que é sempre «contingencial».

O francês Patrick Modiano, de 69 anos, foi publicado pela primeira vez em Portugal em 1987, pela Relógio d’Água.

«Tínhamos começado há pouco tempo e "A Rua das Lojas Escuras" tinha ganhado o Prémio Goncourt, oito anos antes. [Modiano] é de facto uma das principais vozes da literatura contemporânea francesa», afirmou à Lusa Francisco Vale.

«O Nobel é sempre uma surpresa, a Academia Sueca não escolhe autores óbvios e as apostas iam para outros escritores, mas é merecido. Mas também é evidente que umas boas dezenas de autores mereciam igualmente o Nobel, que é sempre contingencial», afirmou Vale.

O editor referiu que «o Nobel tem sido atribuído por diferentes critérios, desde geográficos a histórico-políticos».

Manuel Alberto Valente da Porto Editora, que em 2011 publicou «O horizonte», de Modiano, disse à Lusa que o Nobel distingue «uma grande autor não só francês, mas universal».

«Modiano não é um autor muito marcado política ou ideologicamente, tem sim uma obra indiscutivelmente diferente no panorama da literatura contemporânea», afirmou Manuel Alberto Valente que já há vários apontava o autor francês para o Nobel «até que, finalmente, os senhores do Nobel decidiram dar-lho».

O editor referiu ainda que «a obra de Patrick Modiano é muito marcada pela memória, nomeadamente da II Guerra Mundial, e citou o romance «Dora Bruder», editado por si, na ASA, em 1989.

O secretário permanente do Comité do Nobel, Peter Englund, disse à televisão pública sueca, SVT, citado pela agência noticiosa francesa, que Modiano é o «Marcel Proust do nosso tempo».

O responsável aludiu ao «universo fantástico» do autor francês e ao facto de os seus livros se interligarem, de «responderem uns aos outros».

Autor de mais de 30 títulos - o primeiro editado em 1969, «La Place d’Étoile» -, muitos marcados pela experiência da II Guerra Mundial e as sequelas da ocupação nazi, Modiano tem publicados em Portugal «Domingos de agosto», pelas Publicações Dom Quixote, em 1988, «Um circo que passa», também pela Dom Quixote, em 1994, «Dora Bruder», pelas Edições Asa, em 1998, e «No café da juventude perdida», também pela ASA, em 2009, além de «A rua das lojas escuras», pela Relógio d’Água, em 1987, e de «O horizonte», pela Porto Editora, em 2011.

Também o presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE), José Manuel Mendes, elogiou a «melancolia insubmissa» na obra do francês Patrick Modiano, e considerou «ajustada» a escolha do comité do Nobel da Academia Sueca.

O laureado, de 69 anos, tem uma vasta obra centrada na memória e na identidade, colocando Paris e a II Guerra Mundial como cenários de vários livros.

«Esse tema tem a ver com a marca deixada pela guerra no país, que é comum a muitos outros autores franceses. Mas a obra de Modiano tem outros temas que nos interpelam», apontou o presidente da APE.

Genericamente, José Manuel Mendes apontou na obra do laureado «crepúsculos sociais e pessoais, com a omnipresença da finitude, mas sempre acompanhada pela reafirmação de uma pulsão vital, uma melancolia insubmissa».

Para o presidente da APE, a escolha da Academia Sueca faz sentido porque o autor francês «tem uma obra vasta, publicada em várias línguas, e é reconhecido pela crítica e pelos leitores».

Destacou, como livros marcantes, o primeiro, «La Place de l'Étoile» (1968), ainda «A Rua das Lojas Escuras» (1978) - publicado em Portugal pela editora Relógio d’Água, em 1987 - e ainda «Domingos de Agosto» (1986), pela editora Dom Quixote, em 1988.

O galardão será entregue numa cerimónia em Estocolmo, no próximo dia 10 de dezembro.

A canadiana Alice Munro foi a vencedora do Nobel da Literatura em 2013.