Sara e David descobriram que iam ser pais de gémeos às cinco semanas de gravidez, na primeira ecografia. Na consulta, a médica alertou-os para o facto de ser muito difícil que a gravidez chegasse às 40 semanas, sendo o ideal as 38, mesmo com parto provocado. O que estes pais de primeira viagem não contavam era que, às 33 semanas, o Daniel rompesse a bolsa e obrigasse a irmã, Carolina, a nascer no dia seguinte e fossem ambos prematuros.

«Como connosco nada é normal, fomos pais de uma forma original. O Daniel rompeu a bolsa e nasceu rapidamente e sem grandes dificuldades, no dia 18 às 23:02 de parto normal com 2,050 kg. A Carolina foi mais rebelde. Teve de se optar pela cesariana e nasceu à 1:00 do dia 19 com 2,300kg».

Mãe de primeira viagem, depois do parto normal e de enfrentar uma cesariana, Sara viu-se encurralada na maternidade onde, no seu quarto, havia mais mães e bebés e ela tinha os braços vazios. Os filhos tiveram de ficar na Unidade de Neonatologia para receberem os cuidados necessários de um recém-nascido prematuro.

«É muito violento acabar de ser mãe e não ter os filhos ao pé de mim... Não tenho palavras

A violência de ouvir os bebés dos outros, levou a que pedisse para mudar para um quarto individual, onde ficou quieta durante dois dias por estar muito debilitada. Assim que teve ordem do médico para caminhar, passou a estar «24 sobre 24 horas» com os filhos que estavam nas incubadoras: «bastava pedir e levavam-me para perto dos meus meninos».

O cenário mudou ao fim de cinco dias, quando a mãe teve alta do hospital e os bebés tiveram de continuar internados. O pesadelo do pai, que todos os dias visitava a família no hospital e de lá saía com a «maior sensação de impotência», passou a ser do casal.

«Quando soube que tinha alta fiquei contente, mas quando o carro começou a sair do parque de estacionamento do hospital as lágrimas caiam-me as lágrimas pela cara abaixo. Foi duro», recorda Sara, de voz embargada.

Os momentos duros sucederam-se. A promessa de regressar a casa onde tudo estava preparado para receber os novos membros da família só foi cumprida no dia da alta de Carolina e Daniel.

«Eu tinha dito que quando saísse do hospital tinha dois filhos nos braços e não tinha nenhum. Não consegui voltar para casa sem eles e recorri à dos meus pais». 

Os gémeos tiveram alta ao fim de duas semanas de internamento e, como se de uma promessa se tratasse, «nunca mais voltaram ao hospital».
 

Para esta família de quatro, os dias passados no hospital em 2012 foram de «enlouquecer». Como todas as mães, Sara queria ter os filhos no seu colo 24 horas por dia e David queria poder mimar a família com todo o amor que tinha para dar.

«Sair do hospital todos os dias sozinho, deixando a minha mulher e os meus filhos "para trás" foi das maiores sensações de impotência que já senti. Aliás, sempre que chegava ao carro, não conseguia conter as lágrimas», recorda David.

«Regressar a casa sem o Pedro foi muito duro»

Bárbara Yu Belo é vice-presidente da Associação de Pais Prematuros (APP) e conheceu a realidade da prematuridade quando ficou grávida pela quarta vez e nem tudo correu bem.

«Para além do "choque" por saber que eram gémeos, ou seja o quarto e quinto filhos, correu tudo bem. Até ao momento em que, às 24 semanas, em plena ecografia, em tempo real, o Tiago nos disse adeus…»

Depois da perda de um dos bebés, a médica alertou para a probabilidade de Pedro, agora com três anos, querer ver o mundo mais cedo que o previsto e foi o que acabou por acontecer. Às 31 semanas, o quarto filho de Bárbara nasceu de cesariana de emergência e acabou por ficar «cerca de um mês e meio internado». 

Com o coração apertado, esta mãe de quatro regressou a casa com a sensação de «murro no estômago» e teve de enfrentar os três «traquinas» que aguardavam ansiosamente a chegada do «mano novo»

«Regressar a casa sem o Pedro foi muito duro… É anti-natura. E depois, não foi fácil contar-lhes, confesso. Depois de saberem que um dos manos não tinha resistido, havia o receio deste mano também nos deixar. Escreviam-lhe cartas e faziam desenhos que colávamos na incubadora. Quando ele chegou a casa foi muito bom. Adoravam vê-lo tomar banho numa banheira de bonecas», conta, orgulhosa, acrescentando que ainda hoje «o Pedro é muito protegido pelos irmãos».
 

Com Pedro nos cuidados intensivos, Bárbara e Rui desdobravam-se para estar com os filhos, quer em casa, quer no hospital. Durante o dia era a mãe quem passava o dia com o Pedro. «O Rui ia lá deitá-lo todos os dias. Jantava em casa connosco e ia para o hospital por volta das 21:00 e regressava às 00:00.» O marido saía para ir ver o filho e Bárbara «cheirava as roupinhas do Pedro» para tentar colmatar as saudades do filho mais novo. «Só me apetecia chorar».

A alegria chegou no dia em que Pedro teve alta para ir para casa e com ela os sustos, levando o pai a ter de ter «coração de ferro» para reanimar o filho «algumas vezes». «O Rui foi fundamental».

«O Pedro teve uma paragem respiratória em casa e teve de ser internado mais uma semana. Estes bebés às vezes "esquecem-se" de respirar e têm de ser reanimados. Os pais quase que tiram um curso de socorrismo...»

Pedro tem três anos. Tal como Carolina e Daniel, conseguiu sobreviver à prematuridade sem sequelas e é, segundo a mãe, um «menino muito especial».

«Apesar de ser o mais novo, é o mais compreensivo, o mais tolerante... Talvez pelo que teve de passar, ele sabe esperar».

«Infelizmente, em Portugal, há muitas "Guis"»

Gui nasceu a 28 de outubro, às 25 semanas de gestação, com 410 gramas. Os «40 a 50% de esperança de vida» fizeram com que nenhum seguro cobrisse os gastos do hospital. As contas diárias ultrapassavam os mil euros diários e os pais não tinham possibilidade de pagar as contas. Os donativos ultrapassaram os 100 mil euros e garantiram que a ajuda médica necessária para a bebé fosse assegurada. No dia 10 de novembro, o estado de saúde da pequena guerreira piorou, contrariando as boas notícias que tinham sido recebido horas antes pelos pais. A partir desse momento, a vida de «Gui» ficou por «um fio» que se viria a quebrar este domingo.

A notícia chegou pelo Facebook ao nascer do dia 16 de novembro. A guerreira «Gui» tinha morrido depois de 18 dias de luta num hospital privado no Dubai.  Com a mensagem uma foto dos pais, devastados, a segurarem a segunda filha.
 
 
 

 
A vice-presidente da APP revelou à TVI24 que a associação entrou em contato com Genny e Gustavo, os pais da pequena Gui.

«A APP falou com o pai, o tio e uma avó. Temos uma voluntária que trabalha na Emirates e que levou um monte de postais de amigos e família para o Gonçalo e a Genny. Atuámos na medida em que nos foi possível». 

«Infelizmente, há muitas “Guis” em Portugal» e a APP tenta ajudar todas elas através de apoio durante o internamento, do acompanhamento após a alta e do «desenvolvimento global durante os primeiros de vida».

De acordo com Bárbara, os custos de um bebé prematuro num hospital público em Portugal rondam os cerca de mil euros por dia, mas são assegurados na sua totalidade pelo Estado.

«As mães sentem que têm os empregos em risco»

Tendo como missão ajudar os pais de prematuros e os bebés, a APP tem tido conhecimento de progenitores que se sentem em risco nos seus empregos por terem que faltar ao trabalho para assistir aos filhos e que são «vistos com outros olhos por terem bebés de risco».

«Falta algum apoio social às famílias que têm contratos de trabalho precários e que se veem obrigadas a recomeçar a trabalhar pouco tempo depois do nascimento dos filhos, prescindindo involuntariamente do apoio precioso aos bebés durante o internamento. Para muitas mães e pais, não é fácil estar sempre a "faltar" para prestar cuidados e ir a consultas e faz com que muitas mães sintam que têm os empregos em risco. Uma coisa é a teoria - o Código de Trabalho protege as famílias de uma forma excelente - outra coisa é a prática...», esclarece Bárbara.

Para além da falta de proteção que os pais de crianças prematuras sentem e partilham com a APP, também a pouca proteção laboral dos profissionais de saúde que tratam destes bebés é motivo de preocupação para os pais e para a associação. 

«É um aspeto que é tão importante quanto a presença dos pais na neonatologia: os enfermeiros que vamos conhecendo, que vão conhecendo os bebés, que percebem os seus sinais, são profissionais incríveis, mas com a instabilidade que o país atravessa, acabam por se manter menos tempo em funções e acabam por, involuntariamente, perder este contacto com os pais e bebés», conta a vice-presidente da APP.

Sensibilizar a sociedade para estes problemas é uma batalha diária da associação, que esta segunda-feira assinala o Dia Mundial da Prematuridade com várias atividade em Gaia e noutras cidades portuguesas. Esta terça-feira será ainda inaugurada, na Câmara Municipal de Gaia, a exposição «Olhar a Prematuridade» que reúne fotografias de bebés prematuros quando nasceram e como estão atualmente.
 

Anualmente, há cerca de 1000 crianças que nascem antes do tempo em Portugal. Na Europa, são 500 mil e no mundo 15 mil milhões. Em suma, por cada 10 bebés, um é prematuro.