Rui Bebiano, historiador e diretor do Centro de Documentação 25 de Abril, defendeu esta sexta-feira que as autoridades académicas foram sempre coniventes para com a praxe, por esta favorecer os seus interesses.

A esta conivência está também associada a criação de instituições e universidades nos anos 1980 e 1990, que tiveram a necessidade de aderir «a práticas e rituais» de forma a «ganharem prestígio», criando outros símbolos para se diferenciarem, frisou à agência Lusa Rui Bebiano.

O historiador relembrou que a praxe foi abolida, em 1969, em Coimbra, não só pelo luto académico (motivado pela ausência de diálogo entre estudantes e Governo), mas «por razões culturais e políticas», observando que, mesmo depois da crise académica, não surgiu uma recuperação da praxe, porque se «tinha tornado natural, nessa época, entender a praxe como um ritual antidemocrático e uma afirmação elitista».

Os rituais caíram em «desuso» e caminhava-se para uma «democraticidade da vida estudantil e para um conjunto de práticas culturais e sociais que rejeitavam o universo ortodoxo» a que a praxe estava associada.

Contudo, segundo Rui Bebiano, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, um grupo minoritário, «ligado aos setores da direita», procurou recuperar a praxe, de «forma moderada», passando a ganhar força com a decisão da «União dos Estudantes Comunistas de apanhar o movimento», perdendo a conotação política que existia na praxe.

A «ascensão de Cavaco Silva» no panorama político dos anos 1980 e a consequente presença do «neoliberalismo e do individualismo» levou também a uma «despolitização do movimento estudantil».

O estudante «passou a encontrar naquelas práticas um momento de afirmação» e com a perda da memória aliada à criação de novas universidades e politécnicos a praxe «expandiu».

Para o professor da Faculdade de Letras, a praxe praticada nos anos 1980 parecia «benévola e inofensiva» quando comparada com a que se observa nos dias de hoje.

De acordo com o historiador, a dimensão de violência tem-se vindo a acentuar, passando a praxe pela «humilhação» e por práticas que «infantilizam os estudantes» e onde se podem ver «simulações de atos sexuais, momentos sexistas, asneiras e palavrões».

Os alunos aceitam de forma «acrítica» a praxe, situação que, para Rui Bebiano, se justifica pela «falta de conhecimento» e pela «ignorância», assim como por os estudantes «serem impelidos a aderir à praxe».

Os que não aderem «são informalmente segregados, enxovalhados e isolados», vivendo em «mini-guetos», fechados em espaços físicos, como as repúblicas de estudantes.

A praxe, segundo o historiador, não serve «a ninguém, não melhora a vida a ninguém, apenas cria clivagens profundas na sociedade».

«Apenas serve o poder, porque, enquanto os estudantes estiverem preocupados a praticar a praxe, serão inofensivos contra o poder», alertou Rui Bebiano.