A Plataforma de Apoio a Jovens Ex-acolhidos (PAJE) está a contactar casas de acolhimento para apresentar os seus projetos, que visam melhorar a transição para a vida em autonomia de quem “cresceu institucionalizado”, anunciou o seu fundador.

Lançada há quase dois anos pelo investigador da Universidade de Coimbra João Pedro Gaspar, a PAJE já apoiou 104 jovens que saíram de lares de acolhimentos e enfrentavam dificuldades em iniciar uma vida fora da instituição.

O trabalho realizado com os jovens e os contactos feitos com algumas instituições, em que foram sentidas as suas necessidades, levaram ao desenvolvimento de quatro projetos que visam “melhorar as boas práticas do acolhimento residencial e as transições favoráveis para a vida em autonomia de quem cresceu institucionalizado”, disse à agência Lusa João Pedro Gaspar.

Após o levantamento de todas as casas de acolhimento do país, seguiu-se o contacto com as instituições e envio dos projetos “Ser acolhido para saber acolher”, “(En)caminhar para a inclusão”, “Um jeito feliz de (Há)ver a vida” e “Semana Real(izada)”.

Queremos ser bombeiros e apagar fogos, mas queremos sobretudo preveni-los e achamos que se as casas de acolhimento melhorarem o funcionamento há mais probabilidade de cada vez menos jovens saírem com os problemas com que vão saindo”, disse o fundador da plataforma.

Em poucos dias, a PAGE recebeu várias respostas positivas de instituições, como as casas de acolhimento de Guimarães, Sintra, Caramulo, Mafra e Portalegre.

“É muito importante haver um adulto de referência que acompanhe de uma forma estruturada o jovem” e esse é um dos objetivos dos projetos, disse João Pedro Gaspar, que durante 15 anos trabalhou com menores acolhidos e percebeu as dificuldades que enfrentavam quando deixavam o lar.

Um dos projetos pretende proporcionar aos jovens com 18 anos, que ainda estejam acolhidos, uma semana num espaço da PAGE em Coimbra, onde pode viver em “total liberdade”.

"É um projeto inovador em que o jovem é posto à prova durante uma semana para perceber se está capaz de viver sozinho ou o que tem de ser melhorado” para conseguir viver em autonomia.

Uma das condições fundamentais para a integração do jovem é ter um emprego: “Percebemos que muitos dos jovens que viveram grande tempo em acolhimento não têm rede social”, acabando por fazer amigos que andam na pré-delinquência.

Nós tentamos virar essa página e reforçar-lhes outros contactos e o trabalho é uma boa forma de o conseguir, além de ser fundamental para se sustentarem”, defendeu.

Fazendo um balanço do trabalho realizado, o investigador disse que “não estava à espera que a PAGE fosse tão necessária”, destacando os resultados alcançados.

“Maioritariamente temos tido sucesso, embora haja sempre um ou outro caso que nos deixa tristes”, porque por muitas oportunidades que lhes sejam dadas desperdiçam-nas por motivos ridículos”, disse.

Os pedidos de ajuda dos jovens são diversos, vão desde medicação, consultas médicas, alojamento, alimentação, preenchimento de declarações de IRS, apoio jurídico, problemas que a PAGE procura resolver.

Tendo sempre por base a história de vida de cada um dos jovens, a PAGE procura apoiá-los, através da formação e inclusão social.

O número de crianças e jovens em casas de acolhimento baixou 33% nos últimos dez anos, passando de 12.245 em 2006 para 8.175 em 2016, segundo o Relatório de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens da Segurança Social.