O presidente da direção da comissão nacional do Conselho Internacional de Museus (ICOM), Luís Raposo, considerou esta sexta-feira que a decisão de vender a coleção de 85 obras de Miró «é um erro muito grave de política cultural».

Em declarações à agência Lusa, sobre a venda dos quadros provenientes do antigo Banco Português de Negócios (BPN), em leilão, pela Christie¿s, em Londres, a 04 e 05 de fevereiro, Luís Raposo defendeu que o acervo «deveria ficar em Portugal».

O conjunto de obras do pintor catalão - composto por desenhos e pinturas - ficou nas mãos do Estado após a nacionalização do ex-BPN.

Esta sexta-feira, a maioria PSD/CDS rejeitou, na votação em plenário da Assembleia da República, um projeto de resolução do Grupo Parlamentar Os Verdes, no sentido de suspender a venda, e os projetos, no mesmo sentido, do PCP e do PS, foram igualmente chumbados este mês.

«Se de facto, como dizem alguns especialistas, a coleção é representativa e de qualidade, criada por um pintor da referência da História da arte, ficando num museu, em Portugal, seria um catalisador importante para atrair turistas», argumentou o presidente da direção nacional do ICOM.

Para Luís Raposo, a manutenção das obras num museu de arte contemporânea do país «seria um poderoso investimento a analisar economicamente, com grande retorno a longo prazo e prestígio para Portugal».

Na quarta-feira, o Grupo Parlamentar do PS anunciou que, tendo esgotado todas as iniciativas parlamentares no sentido de suspender a venda das obras em leilão, iria apresentar um pedido de providência cautelar.

Fonte do gabinete de assessoria de imprensa da Procuradoria-Geral da República confirmou à agência Lusa que o documento deu entrada naquela entidade ao fim da tarde de quinta-feira. «O mesmo foi remetido ao Ministério Público junto do Tribunal Administrativo competente para apreciar se existem elementos que permitam requerer a providência indicada», acrescentou a mesma fonte.

Na quinta-feira, foi aprovado, por unanimidade, na Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, um parecer e relatório sobre a petição em defesa da «Manutenção em Portugal das obras de Miró», que já recolheu mais de 8.800 assinaturas desde o início de janeiro.

Os peticionários também enviaram o documento para o Parlamento Europeu, esperando que aquela instância possa inviabilizar o processo.

A deputada Gabriela Canavilhas entregou a 15 de janeiro um requerimento à Direção-Geral do Património solicitando a inventariação e classificação das obras de Miró, mas diz que, «até agora, infelizmente, não houve nenhuma resposta».

Quando a petição foi lançada, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, disse que «a aquisição da coleção de Joan Miró não é considerada uma prioridade no atual contexto de organização das coleções do Estado» português.