Estava erradicado em Portugal desde o ano passado, mas, desde janeiro, já foram registados mais casos do que em dez anos. O sarampo voltou a causar preocupação na sociedade portuguesa e há já 21 casos confirmados. A Direção-Geral de Saúde sublinhou na segunda-feria que estamos perante "uma epidemia de sarampo". Reunimos um conjunto de perguntas e respostas para desfazer todas as suas dúvidas.

 

O que é o sarampo?

O sarampo é uma das infeções virais mais contagiosas. Habitualmente trata-se de uma doença benigna, mas, em alguns casos, pode ser grave ou mesmo fatal.

Quais são os sintomas?

Os sintomas iniciais são febres altas, conjuntivite, grande produção de catarro e tosse. Um ou dois dias depois, aparecem pequenos pontos brancos no interior da boca. E entre o terceiro e sétimo dia surge uma mancha vermelha, normalmente no rosto, que se espalha depois para o tronco e para os membros interiores. No final da primeira semana ocorre uma descamação fina de toda a pele. Os sintomas manifestam-se entre dez a 12 dias depois do contágio e duram entre sete a dez dias.

Como se transmite?

O sarampo transmite-se por via aérea, através da tosse e dos espirros de uma pessoa infetada. Também pode ser transmitido através do contacto com saliva ou secreções nasais. É menos comum, mas também pode acontecer, a transmissão ocorrer através do contacto com produtos infetados com secreções nasais ou faríngeas do doente.

Quando se transmite?

Quatro dias antes de aparecerem as manchas na pele, o vírus já pode ser transmitido. Normalmente, o período de contágio termina quatro dias depois de aparecerem as manchas, sendo que o risco já é mínimo a partir do segundo dia.

O sarampo mata?

Nos casos mais raros, o sarampo pode provocar consequências graves e até levar à morte. As complicações podem resultar numa infecção bacteriana e evoluir para uma otite média, uma pneumonia, uma laringotraqueobronquite (crupe), convulsões febris e encefalite.

Mas Portugal não estava livre de sarampo?

A doença estava erradicada em Portugal desde o ano passado. Mas desde janeiro, Portugal já registou mais casos de sarampo do que em dez anos. Em quatro meses foram confirmados, segundo o último balanço da DGS, 21 casos. Entre 2006 e 2014 foram registados 19 casos. A ocorrência de surtos de sarampo em alguns países europeus, devido à existência de comunidades não vacinadas, colocou Portugal em elevado risco. A doença voltou porque há pais que não vacinam os filhos. Ainda assim, em Portugal, a taxa de vacinação é de cerca de 95% nas pessoas entre os 7 e os 18 anos de idade.

Como se previne?

Através da vacinação. A vacinação é gratuita e está disponível para todas as pessoas presentes em Portugal, como esclarece a DGS. 

Os pais podem vacinar os filhos a partir de que idade?

O Programa Nacional de Vacinação recomenda a vacinação com duas doses, aos 12 meses e aos cinco anos de idade. O diretor-geral da Saúde já admitiu, no entanto, baixar a idade da primeira vacina para antes dos 12 meses.

A vacina é obrigatória?

Não. À semelhança do que acontece com as restantes vacinas, a vacina que previne o sarampo não é obrigatória. Há casos raros de pessoas que, por razões médicas, não podem ser vacinadas. E depois há casos de pais que não vacinam os filhos por outras razões. No caso de recusa, os centros de saúde pedem aos pais que assinem um termo de responsabilidade e esta informação é registada na ficha da criança. 

Mas as crianças não têm de ser vacinadas para se matricularem na escola?

As escolas têm um papel muito importante no controlo da vacinação. Habitualmente, e no que toca às escolas públicas, o controlo do boletim de vacinas é feito no momento de entrada no agrupamento escolar. O boletim volta a ser pedido nas mudanças de ciclo. Mas não sendo uma vacina obrigatória, a verdade é que as escolas públicas não podem, por lei, recusar admitir crianças que não são vacinadas. No privado, há escolas que exigem o boletim em dia. No caso da inscrição de uma criança não vacinada, é geralmente pedido aos pais um atestado médico ou um termo de responsabilidade.

A doença pode surgir em pessoas vacinadas?

Pode, mas com um quadro clínico mais ligeiro e menos contagioso. A DGS alerta que a vacinação é a principal medida de prevenção.

Então por que é que há pais que não vacinam os filhos?

Há pais que não querem que os seus filhos sejam vacinados. A origem do movimento anti-vacinação começou com a publicação de um estudo na revista The Lancet no final dos anos 90 que, entretanto, foi considerado fraudulento. O autor do estudo, o cirurgião canadiano Andrew Wakefield, indicou que havia uma alegada ligação entre a administração da vacina tríplice (sarampo, papeira, rubéola) e o autismo. A teoria foi arrasada por um outro trabalho de investigação publicado no The British Medical Journal, que considerou o estudo uma "fraude sofisticada". O Conselho Médico Geral britânico considerou que Wakefield agiu de maneira antiética e desonesta pois utilizou crianças que foram escolhidas por um escritório de advogados que defendia um casal que queria processar uma farmacêutica. A própria revista The Lancet veio pedir desculpas pela publicação do artigo, em 1998.

Há também pais que se esquecem de vacinar os filhos por terem perdido a perceção do risco. Não "se vendo a doença", que chegou a ser eliminada, corre-se o risco de não continuar a imunizar as crianças.