Dois peritos que se dedicaram a estudar a tragédia de Camarate repetiram esta quarta-feira no parlamento a tese de atentado «ardiloso», com um pequeno explosivo, para passar despercebido e indiciar falha mecânica ou outro incidente na queda do avião.

O especialista em exploração de minas Henrique Miranda e engenheiro metalúrgico José Cavalheiro, ambos docentes universitários entretanto aposentados, explicaram na comissão parlamentar de inquérito às mortes do então primeiro-ministro Sá Carneiro (PPD-PSD) e seu ministro da Defesa, Amaro da Costa (CDS), e sua comitiva, que o «puzzle» montado desmente a primeira versão oficial de acidente há 35 anos.

«Foi feito com extrema habilidade, por um profissional, como, por exemplo, as Torres Gémeas de Nova Iorque, dois edifícios que pareciam indestrutíveis, mas foram derrubados com dois ‘cocktail molotov' carregados de passageiros», afirmou Henrique Miranda.

O perito garantiu que, depois de «juntar as peças, algumas estragadas pelo uso ou perdidas», foi possível «vislumbrar a imagem do puzzle»: «houve uma carga (explosiva) não muito grande, mas de grandes efeitos, que induziu o desgoverno mecânico ou a impossibilidade de os pilotos reagirem, pelo incêndio ou a intoxicação com monóxido de carbono, e a consequente queda» daquele Cessna 421 Golden Eagle.

«A minha convicção é a de que isto foi um atentado muito ardiloso na forma como foi implementado», resumiu, ressalvando ser «impossível inferir a existência inequívoca de uma carga explosiva» a bordo daquele bimotor de fabrico norte-americano.

Na teoria de Henrique Miranda, devido a ter sido também encontrada a cabeça de uma granada na pista, o avião terá sido armadilhado, com recurso a fio de pescador junto do trem de aterragem. Ao levantar voo e recolher as rodas, a espoleta foi acionada e verificou-se o pequeno rebentamento na fuselagem, por baixo do piloto, provocando um foco de incêndio e a produção de monóxido de carbono, além de inviabilizar os comandos dos lemes.

O rasto de detritos encontrados desde a pista até ao local do embate da aeronave com as casas é explicado pelo especialista pelo «orifício A», aos pés do comandante, com franjas retorcidas para dentro, o qual terá funcionado como um «spray» (aspersor), em virtude do aumento da pressão em toda a cabina.

«Por análise densitométrica, provou-se que eram estilhaços (ferro/aço) e outras partículas de liga de alumínio tão pequenas que não eram compatíveis com a versão oficial de acidente», concordou o investigador de biomateriais José Cavalheiro, referindo exames radiográficos ao calcanhar do piloto.

Segundo o também antigo professor do ensino superior, é «indesmentível que houve ali uma situação de atentado» e «o comportamento do Ministério Público, ao longo de todo o processo, foi inaudito, digno de uma ‘República das Bananas', em termos de falsificação completa da metodologia e das conclusões retiradas, na construção de uma narrativa em torno de hipóteses sem qualquer sustentabilidade».

Os trabalhos da X Comissão Parlamentar de Inquérito à Tragédia de Camarate, suspensos desde dezembro de 2013, foram retomados terça-feira e têm conclusão prevista para o final do mês sobre o ocorrido em 04 de dezembro de 1980, durante a campanha eleitoral para a Presidência da República, na qual a Aliança Democrática (PPD-PSD/CDS) apoiava Soares Carneiro.

O inquérito visa apurar as «causas e circunstâncias em que ocorreu a morte do primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, do ministro da Defesa Nacional, Adelino Amaro da Costa, e dos seus acompanhantes».