O advogado do homem suspeito de 439 crimes de abuso sexual de nove crianças, que começou a ser julgado, esta quarta-feira, em Penafiel, considera que a acusação tem muitas "imprecisões e excessos".

"Há [na acusação] muitas imprecisões e excessos. Há crimes de que o arguido está acusado que me parece não terão sido praticados. Vamos tentar desmontar essa situação", afirmou Hernâni Gomes, em declarações ao jornalistas.


O advogado falava na pausa para almoço da primeira sessão de julgamento que está a decorrer à porta fechada.

Segundo a acusação do Ministério Público, o suspeito, de 36 anos, desenvolveu, pelo menos desde os 18 anos, uma "forte atração sexual" por crianças do sexo masculino, com idades entre os sete e os 12 anos.

Aos jornalistas, o jurista adiantou hoje que o seu constituinte, professor de educação física e treinador de futebol, prestou declarações ao longo da manhã (durante cerca de três horas), respondendo às questões formuladas pelo tribunal.

Sublinhou também que o suspeito "está muito calmo e a reagir muito bem a todas as questões".

Hernâni Gomes esclareceu que o depoimento do arguido "não vai muito de encontro aos factos da acusação", acrescentando que "está a rebater" a tese do Ministério Público.

Avançou também que o seu constituinte "não admitiu nem deixou de admitir a existência de quaisquer crimes pelos quais está acusado".

"Está a dar as explicações para os comportamentos que teve ao longo da vida e o seu relacionamento com os menores", acrescentou o causídico.


Questionado sobre as expectativas que tem para o julgamento, o advogado disse "aguardar com expectativa o depoimento da prova indicada pela acusação".

"São mais importantes as testemunhas indicadas pela acusação", acentuou, acrescentando: "Vou tentar demonstrar que aquilo que está na acusação não é exatamente o que ocorreu ou o que não ocorreu".


Tribunal ouviu declarações gravadas de criança vítima de abuso sexual

O tribunal de Penafiel iniciou a audição das gravações para memória futura das crianças vítimas de abusos sexuais alegadamente praticados pelo homem de 36 anos que começou hoje a ser julgado à porta fechada.

Segundo o advogado do arguido, foi hoje ouvida a primeira gravação, prevendo-se que as próximas ocorram na terça-feira, na segunda sessão do julgamento.

A defesa,em declarações à Lusa após a audiência, admitiu que poderá requerer a audição presencial de algumas das crianças que gravaram os seus depoimentos para memória futura.

Na parte da tarde da sessão inaugural do julgamento, o arguido foi submetido a interrogatório pelos quatro cidadãos (três homens e uma mulher) que integram o tribunal de júri.

"Todos os jurados colocaram várias perguntas e o arguido respondeu", esclareceu o advogado, frisando que o tribunal de júri decorreu de um requerimento da defesa, para que "mais cabeças decidam sobre uma matéria tão delicada".


Para quarta-feira, dia 06 de maio, ficou marcada nova audiência, durante a qual deverão ser ouvidas as primeiras testemunhas de acusação, consideradas as mais importantes pela acusação.

O arguido responde pela alegada prática 260 crimes de abuso sexual de dois alunos (130 por cada uma das vítimas), de 2010 a 2013, período durante o qual foi professor de educação física e lecionou aulas de apoio de outras disciplinas a alunos com necessidades educativas especiais, numa escola de Lisboa.

Entre 2009 e 2013, é suspeito de abusar sexualmente de um sobrinho que, à data do início dos factos, tinha oito anos.

Segundo a acusação, em 2012, enquanto treinador de escalões jovens de um clube de futebol de Lisboa, o arguido convenceu os pais de um menor a deixá-lo pernoitar, nas vésperas dos jogos, em sua casa, além de o levar consigo para Marco de Canaveses, numa viagem à Madeira e a passar uma semana num hotel de Lisboa. Estão em causa 100 crimes de abuso sexual de crianças.

O homem iniciou funções como docente de um centro de reabilitação, no Funchal, na ilha da Madeira, em 2013. É acusado de 30 crimes cometidos sobre um menor que frequentava a instituição.

O arguido encontra-se em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional do Porto.