Água, mesmo que pouca, e tecto, mesmo que frágil. Foi assim que muitos dos sobreviventes da tragédia de Pedrógão Grande explicam o facto de não terem sido levados pelas chamas nos incêndios no junho. A história de Nodeirinho, onde dez pessoas se salvaram dentro de um tanque comunitário, não foi caso único. Em pelo menos quatro aldeias, foram os tanques ou piscinas que evitaram o pior. Mas não foi tudo. Na tragédia de Pedrógão Grande, partir ou ficar revelou-se ser literalmente uma decisão de vida ou morte.

Em Sazedas de São Pedro, Joaquim (nome fictício) saltou para dentro do tanque depois de ele e a mulher seguirem caminhos diferentes. Fernanda (nome fictício) não acompanhou o marido, ou porque não pode, ou porque não quis e fugiu com os vizinhos num carro. Fernanda acabou por perder a vida. Joaquim salvou-se no lavadouro comunal, que tinha ainda quatro tanques e um reservatório aberto.

Também num tanque, em Pobrais, uma família pôs a salvo os mais pequenos e esperou pelas chamas em casa. Com o aproximar do fogo, foi o tanque que tinham no quintal que lhes permitiu guardar a vida. Já na Moita, um homem refugiou-se na piscina de casa para escapar ao calor que havia em redor.

Os relatos de sobrevivência divulgados no capitulo seis  do relatório sobre os incêndios elaborado pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, revelam que ficar em casa foi, em muitos dos casos, a decisão mais acertada.

Manuel (nome fictício) vive em Figueiró dos Vinhos. No fatídico dia 17 de junho, sentiu o primeiro alerta pelas 18:00: uma rajada de vento forte que poderia não ser mais do que isso. Chegou a casa pelas 19:00, tomou banho e foi enquanto se vestia que sentiu o segundo alerta. Novamente o vento. Era forte e a queda de “velhas”, isto é, “partículas incandescentes mas em combustão lenta ou apenas a fumegar” lançou alerta para o piorDecidiu sair de casa e ir até à freguesia da Graça para, lá do alto, ver onde andava o fogo. Percebeu que ia já a caminho de Figueiró dos Vinhos. Dali, podia ter seguido outro rumo. Decidiu voltar a casa. Sem luz, apenas com a água da rede, sozinho, apagou fogacho a fogacho. Conseguiu salvar a sua casa e a do vizinho.

Maria (nome fictício) também vive em Figueiró dos Vinhos. Foi na casa de alvenaria, no primeiro andar de um conjunto de casas, que tudo começou. Viu o fumo e a primeira preocupação foi a roupa estendida. Abriu então a janela, permitindo ao fumo entrar. Decidiu depois fechar as janelas, sem saber ao certo o que fazer no caso dos estores. Abertos ou fechados? Acabaram por ficar abertos. Correu às torneiras que já não tinham água, pouco depois foi a luz que faltou.

Rodeada de fumo, sem meios e já assustada, Maria (nome fictício), vê um clarão de incêndio na rua e decide proteger-se nas escadas de pedra. É ali que fica a ouvir o barulho de pânico na rua e a rezar. O fogo aproximou-se e a mulher decide sair para a rua. Acaba por encontrar um ferido queimado a quem ainda deu uma garrafa de água que guardava no autocolismo. Ligou para o 112 e pediu ajuda a quem passava. 

Mais tarde, pelas 21:30, passou um VCOT, que parou mas disse que não podia levar o queimado, pois já levava outras pessoas para o Centro de Saúde de Figueiró dos Vinhos."

Em Pobrais, Fernando e Isabel (nomes fictícios) também ficaram em casa e também se salvaram. Viram muitos vizinhos saírem em fuga nos carros. Mas a casa, em boas condições, não era algo de que quisessem abrir mão, apesar de por perto existirem muitos quintais com material que facilmente iria arder.

Mangueiras e baldes de água. Fogo a fogo nos terrenos em volta e nos quintais vizinhos conseguiram salvar as vidas, a casa, e também a casa do vizinho. Na mesma aldeia, arderam mais duas casas, numa delas que ruiu, morreu uma pessoa.

O relatório agora divulgado em parte revela que das 65 vítimas mortais apenas quatro morreram dentro de casa e que 11 morreram a pé, 31 dentro de carros e 16 após acidentes, fora dos carros. 

Nota: Os nomes dos sobreviventes no relatório estão omitidos para preservação da indentidade das vítimas e por isso os nomes atribuídos neste artigo são fictícios.