O Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais considera que a atuação da GNR, em relação ao corte da Estrada Nacional (EN) 236-1, não contribuiu para a dimensão da tragédia do incêndio de Pedrógão Grande.

Tendo em conta que a rede de estradas neste território é muito densa, com varias ramificações, parece-nos que seria virtualmente impossível fechar eficazmente qualquer troço importante das mesmas. Em concreto na EN236-1 verificou-se que um grande número de veículos entrou no troço do acidente a partir de várias estradas que lhe dão acesso”, refere o relatório coordenado por Domingos Xavier Viegas e hoje entregue à ministra da Administração Interna.

O documento, intitulado “O complexo de incêndios de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes, iniciado a 17 de junho”, adianta que, mesmo que a GNR fosse avisada para cortar estas vias, “não haveria recursos humanos para o fazer, nem esse pessoal teria possibilidade de se manter nesses postos”.

Por este motivo, sem prejuízo de situações pontuais, que não conseguimos analisar em detalhe, consideramos que a atuação da GNR não terá sido um fator decisivo que tenha contribuído para esta tragédia”, concluiu o documento publicado no portal do Governo.

A quase totalidade das vítimas do incêndio de Pedrógão Grande morreu quando tentava fugir de carro pela estrada e, apenas num troço com 400 metros da EN236-1, perderam a vida 30 pessoas.

Relativamente ao acidente na EN236-1 e a sua relação com os cortes de acesso efetuados pela GNR no Itinerário Complementar oito (IC8), o documento coordenado por Domingos Xavier Viegas não conseguiu apurar “com toda a certeza as horas em que foram efetuados ou retirados”, uma vez que foram solicitados à GNR os dados correspondentes, mas tal não chegou a tempo de análise.

O relatório sublinha ainda que “a falta de limpeza da envolvente das estradas permitiu que muitas pessoas fossem colhidas em plena fuga, pelo fumo e pela radiação do incêndio, pelas chamas da vegetação em redor e mesmo por árvores caídas na própria estrada”.

Falhas de comunicação agravam consequências

A falha do sistema de comunicações no incêndio de Pedrógão Grande terá contribuído para a falta de coordenação dos serviços de combate e de socorro, dificuldade de pedido de socorro e agravamento das consequências do fogo.

Esta conclusão consta do relatório “O complexo de incêndios de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes, iniciado a 17 de junho”, elaborado pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais, hoje entregue à ministra da Administração Interna.

O relatório coordenado por Domingos Xavier Viegas indica que “o sistema de comunicações por rádio e por telefone teve uma falha geral em toda a região, quer por limitações inerentes aos sistemas, como sejam a sua pouca salvaguarda perante a exposição ao fogo, quer por sobrecarga de utilizadores, ou ainda por deficiente utilização de alguns dos sistemas”, tendo sido este facto “agravado pela indisponibilidade de meios complementares devido a falta de planeamento”.

A falha do sistema de comunicações terá contribuído para a falta de coordenação dos serviços de combate e de socorro, para a dificuldade de pedido de socorro por parte das populações e para o agravamento das consequências do incêndio”, precisa o documento encomendado pelo Governo.

Para este centro de estudos da Universidade de Coimbra, as comunicações não terão sido um fator decisivo na fase inicial do incêndio em Escalos Fundeiros, desde a sua deteção até cerca das 18:00 ou 19:00 de 17 de junho, altura em que se “perdeu o controlo sobre o incêndio”.

No entanto, adianta, no período crítico entre as 19:00 e as 22:00, “a falta de comunicações, com o Posto de Comando Operacional e entre as forças e entidades no terreno, terá sido muito importante, para a recolha e encaminhamento dos pedidos de socorro e para a coordenação das forças de combate e socorro”.

Não se entende a falta de cuidado de quem tutela as comunicações pois não foi o primeiro relato de colapso das comunicações de que há registo. Mesmo a nível de antenas móveis, não estar nenhuma operacional não pode ser aceitável”, sustenta o relatório divulgado no portal do Governo.

Nesse sentido, o documento coordenado por Domingos Xavier Viegas recomenda que “as operadoras sejam obrigadas a reforçar as comunicações móveis num prazo muito curto de tempo, com o auxílio de antenas móveis como acontece nos grandes acontecimentos desportivos e em outros eventos que envolvam multidões”.

É também proposto que o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança (SIRESP) tenha mais antenas móveis e a funcionar, aumente a largura de banda, e eventualmente “socializar os utilizadores da rede a saberem utilizar esta com maior eficiência, de modo a evitar comunicações desnecessárias ou que possam ser feitas em outras redes”.

O relatório sugere igualmente que sejam estabelecidos planos de comunicações para cada teatro de operações e que o SIRESP seja utilizado de forma “serena e em exclusivo para os canais adstritos”.

Relatório recomenda criação de comando de busca e salvamento

Portugal devia ter um comando de busca e salvamento, para prestar apoio em locais afetados por incêndios e com capacidade para desobstruir estradas, entrar em casas a arder e prestar apoio médico. A sugestão faz parte das recomendações do relatório do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais.

O documento, intitulado “O complexo de incêndios de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes, iniciado a 17 de junho”, sustenta que no campo da prestação de socorro médico em catástrofes como a de Pedrógão “há que melhorar muito a organização de um serviço de busca e salvamento” para prestar socorro e apoio sanitário.

Os autores do trabalho alertam para a possibilidade da repetição de tragédias como a de Pedrógão Grande, devido às alterações climáticas e “fatores agravantes” dos incêndios florestais, pelo que é preciso “preparar o país”.

E sugerem que haja mais responsabilização da negligência quanto a, por exemplo, ausência de planos de defesa e de emergência. “Deveria haver uma maior responsabilização das entidades e dos cidadãos encarregados destas tarefas”.

Os autores afirmam ainda ter reservas quanto às “evacuações compulsivas generalizadas”.

Os cidadãos que estejam física e psicologicamente aptos para defender as suas habitações não deverão, em princípio, abandoná-las”, e “no caso de ser necessária uma evacuação ela deve ser planeada e executada com antecedência”, diz-se no relatório.

No mesmo documento também se recomenda “um grande cuidado” na seleção dos quadros de comando” da estrutura da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) e dos Bombeiros, devendo ser valorizadas as pessoas com experiência e com provas dadas.

Defendemos que em todos os escalões haja uma melhor qualificação dos agentes de proteção civil”, e “reconhecemos que uma resposta mais pronta nas emergências carece de uma maior profissionalização dos bombeiros”, são frases do relatório, no qual se defende o voluntariado mas dotado de maior “exigência e disciplina”.

Os responsáveis defendem ainda na síntese de recomendações que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, ICNF, tenha uma maior presença e participação na gestão dos incêndios florestais.