As redes sociais como o Facebook, são cada vez mais utilizadas por pedófilos para encontrar as suas vítimas. Esta é uma realidade dos dias atuais e os pais precisam de se adaptar a ela. Até porque, «é quase como se a rede social fosse um catálogo de crianças» para os pedófilos.

Este é o alerta deixado por Mauro Paulino, um psicólogo forense, colaborador do Instituto de Medicina Legal, que, em 2009, publicou o livro «Abusadores Sexuais de Crianças: A verdade escondida», ao fim de um ano de investigação, e trabalha diariamente com esta realidade.

O número de casos de abusos sexuais onde aparece escrita a palavra Facebook «é crescente», explica à TVI24. «Nos casos extrafamiliares (praticados por estranhos), mais associados à pedofilia, há um número crescente de casos. O Facebook, cada vez mais, tal como outras redes sociais, está a ser utilizado como meio. É quase como se a rede social fosse um catálogo de crianças em que o pedófilo se vai apercebendo de uma determinada característica física da criança, que valoriza, e tenta aproximar-se». Mauro Paulino admite que a expressão «pode ser forte», mas não a retira.

O psicólogo avisa que os pais devem estar atentos a esta nova realidade e devem interessar-se pelo que os filhos fazem nas «redes». Devem observar se a criança passa muito tempo na internet e com quem costuma falar porque, normalmente, estes indivíduos tentam criar uma relação de confiança com o menor, que por sua vez lhe traga segurança a si para poder cometer os atos, eliminando aos poucos os riscos de ser apanhado pelas autoridades.




Apesar de recente, o problema «está identificado» e já «há alguns estudos feitos» que deixam «alertas», diz Mauro Paulino. Os pais, por exemplo, devem ter em «atenção que os pedófilos usam contas falsas e fazem pedidos de amizade às crianças. Não tentam marcar um encontro de um dia para o outro, é algo que demora tempo, porque há um estado de criação de amizade, tentam perceber o risco. Saber se o computador é só acedido pela criança, se está na sala, no quarto». A verdade é que a internet veio trazer outras questões e «os pais precisam evoluir nesse sentido».

No entanto, Marco Paulino sabe que é difícil que os menores, especialmente os pré-adolescentes e adolescentes, partilhem a sua vida «pessoal» com os progenitores, e isto acontece mesmo depois de casos de abuso sexual. Por isso, e porque a maioria dos casos de abuso sexual de menores acontece no seio familiar (e se o pai ou a mãe é o abusador, não há a quem contar), Paulino defende que deve existir uma terceira figura de confiança, a quem a criança possa recorrer.

Pais precisam de falar sobre sexo com os filhos

No dia em que se celebra o Dia mundial da Prevenção do abuso sexual contra crianças, Mauro Paulino defende que «é preciso ir para as creches e ensinar os “papás e as mamãs” que têm de falar sobre sexo com os filhos. Prepará-los para a sexualidade, dizer-lhes que não há mal em dizer “pénis” ou “vagina”. Até porque, quando os pais tratam estes termos com naturalidade, as próprias crianças, se surgir algum problema, com menor ansiedade vão dizer “mexeram-me no pénis” ou “mexeram-me na vagina”».

E qual a melhor idade? «Desde tenra idade, quatro, cinco anos, mesmo no pré-escolar». Mauro Paulino dá um exemplo de como se pode abordar o tema com crianças pequenas: «Fazer um desenho do corpo humano ou usar um desenho pré feito e mostrar à criança. Pintar a verde onde ela pode deixar tocar e pintar a vermelho as partes do corpo onde ela não pode deixar tocar».

O Conselho Europeu já tomou iniciativas neste sentido. O maior exemplo será, provavelmente, o website « aquininguemtoca.org» (underwearrule.org), que ensina dicas aos pais de como mostrar aos seus filhos as zonas do corpo onde não devem deixar ninguém tocar. No site é possível ver um filme animado que pode ser mostrado às crianças, e pode fazer-se download de um livro com os mesmos ensinamentos.

Em Portugal, o site « miudossegurosna.net», fundado por Tito de Morais, tenta uma abordagem de igual prevenção, embora direcionada para os perigos da internet para as crianças. Logo na sua página inicial, são expostos os principais perigos a que as crianças e jovens estão sujeitos ao frequentar o «online», e responde às perguntas frequentes sobre métodos de prevenção que podem ser feitos pelos pais, sem sair de casa.

Durante a Conferência que assinalou os 25 anos da Convenção dos Direitos da Criança, realizada a 20 e 21 de outubro na Assembleia da República, Tito de Morais já tinha alertado que é necessário educar os jovens desde cedo para os perigos, principalmente porque a internet vaio facilitar o acesso dos abusadores a potenciais vítimas.

«[É necessária] uma lei que torne obrigatório o ensino sobre [o problema] dos abusos sexuais. (…) Porque muitas vezes os pais só falam destes temas quando os jovens já têm 16 anos, e já é tarde. (…) «O toque hoje já não é só presencial. É o filmar, o fotografar e a partilha em sites de pedofilia. Mesmo as fotografias que são trocadas entre jovens namorados podem acabar num site desses», disse, durante a sua intervenção na conferência.

Crianças ensinadas a ter medo de monstros

Já para Filipa Carrola, mestre em psicologia clínica Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UBI e atual psicóloga clínica e da Saúde do Gabinete do Sindicato Nacional da Polícia (SINAPOL) considera que para proteger as crianças não basta apenas ensiná-las sobre a sexualidade. É necessário estar atento, porque a pedofilia não tem rosto, e as crianças são ensinadas para terem medo dos «monstros».



Entre 2010 e 2011, para a realização da sua tese de mestrado, a psicóloga a psicóloga contactou com mais de 60 acusados de abuso sexual de crianças, detidos em prisões nacionais, e comprovou que estes indivíduos não são um grupo homogéneo. Vêm de classes diferentes, têm escolaridades e profissões variadas, pelo que não existe um «perfil típico» de um abusador. Não há forma de os reconhecer em sociedade e o seu caráter muitas vezes sedutor é o que os torna perigosos para as crianças, que não os veem como uma ameaça. A investigação que levou a cabo culminou na publicação do livro «Sexo, crianças e abusadores».

São muitas vezes sujeitos que conhecem a mente das crianças e sabem como se aproximar. Por exemplo, durante as visitas a estabelecimentos prisionais na Guarda, Covilhã, Castelo Branco e Carregueira, Filipa encontrou alguns abusadores sexuais, provavelmente pedófilos, que gostavam de ver desenhos animados. A seu ver, alguns porque revelavam imaturidade, outros porque, assim, sabiam abordar os menores em relação ao tema.

«Para terem uma conversa com uma criança precisam estar em sintonia com ela. Muitos descrevem uma sintonia de interesses: “eu vejo o Noddy”, ou “gosto da Violeta”, entre outras coisas, e conseguem ter uma conversa de igual para igual. Há uma frase que eu gosto bastante, “monstros não se aproximam de crianças, homens gentis sim”. Nós educamos as crianças para terem medo dos monstros, para fugirem a sete pés, esses é que são os maus, os estranhos, mas esquecem-se que as crianças se virem um monstro fogem a sete pés. (…) [Mas] se virem uma pessoa simpática, se se souber aproximar, se essa pessoa souber conversar, se lhe oferecer prendas, é aí que vai haver [oportunidades]».

Os abusos sexuais de crianças em Portugal. Quem são as vítimas? Quem são os agressores?






O que diferencia um abusador sexual e um pedófilo

Que tipo de abusadores sexuais existem? «Diferentes escolas de psicologia criminal que criaram vários perfis de abusadores sexuais. Mas aquele que é mais imediato e fácil de apreender, é a distinção entre abusador primário/pedófilo e abusador secundário/situacional», explica Mauro Paulino.

«O abuso primário ou pedófilo é uma compulsão para se relacionar sexualmente com crianças, uma procura dirigida para crianças, onde esta é um objeto de desejo e gratificação sexual», depois temos os «abusadores secundários ou situacionais, que estão mais relacionados com o incesto. Isto é, não existe uma propensão para abusar sexualmente de uma criança, aquilo que existe é uma circunstância, uma série de contingências, que naquele momento específico da vida ele(a) não conseguiu controlar o comportamento e acaba por abusar sexualmente de uma criança». Outra das diferenças está no facto da pedofilia ser «uma doença, uma parafilia».

Nas estatísticas deste crime, mesmo que a realidade esteja em grande parte «escondida», a maioria dos casos, acontece na família: pais, padrastos, tios, avós. Ou seja, a maioria dos abusadores são secundários. A percentagem de pedófilos é, na verdade, pequena. Apesar de serem «mais perigosos» e terem uma «taxa de reincidência mais elevada», são menos.

Mauro Paulino ressalva ainda que um abusador sexual não tem que ser um pedófilo e um pedófilo não tem que ser um abusador sexual.

«Os pedófilos são mais astutos», gostam da manipulação, de seduzir as crianças, de conquistar a família para terem acesso, «explorando as debilidades familiares». Por exemplo, um pedófilo pode dar-se ao trabalho de «selecionar uma mulher divorciada que tenha filhos, para ter acesso a eles».