Por: Cláudia Lima da Costa | 2- 9- 2010 18: 25
Primeiro há a coragem para a denúncia. Depois a Polícia Judiciária investiga e separa o «trigo do joio», que é como quem
diz, dá consistência aos indícios fortes de um crime e deixa cair por terra as suspeitas «sem pernas para andar». O crime
é ainda validado pelo Estado, através do Ministério Público, que acusa formalmente o indivíduo. Mas, tudo isto, é apenas um
primeiro passo para garantir que no fim haja justiça, quer para um lado, quer para o outro. A palavra final é sempre do Tribunal.
Nos últimos sete anos, 30 por cento dos suspeitos de pedofilia sentaram-se no banco dos réus e saíram em liberdade.
Esta
sexta-feira, Portugal deverá ficar a conhecer a sentença do processo que mais chocou o país, não fosse a pedofilia um crime
que mexe com as entranhas. Um caso longo e complexo que, se seguir a tendência da maioria dos processos de abuso sexual de
menores, em Portugal, nos últimos sete anos, verá os seus sete arguidos condenados.
Segundo os dados do Ministério
Público a que o tvi24.pt teve acesso, de 2002 a 2008, foram condenados 1110 pedófilos, das 1576 pessoas foram acusadas.
Ou seja, o tribunal não conseguiu provar, em 29,6 por cento dos casos, que os crimes de abuso sexual denunciados aconteceram
de facto. E os suspeitos saíram em liberdade. Ainda assim, o «outro lado da moeda» revela que 70 por cento dos arguidos, em
1489 processos, foram condenados por pedofilia.
Em média, a Justiça portuguesa leva a julgamento 212 processos de
abuso sexual por ano. Nestes, são levados a responder pelos crimes 225 suspeitos e 158 vêem a sua conduta reprovada. Em 2008,
o número de arguidos foi o mais elevado, mas também o número de suspeitos ilibados foi o mais alto nos últimos sete anos.
Foram a julgamento 309 arguidos, mas só 201 foram condenados.
Pedofilia: nem um quinto chega a julgamento
Os
números da Justiça relacionada com a pedofilia em Portugal revelam ainda uma disparidade entre a denúncia e a justiça final.
Se compararmos o número de inquéritos instaurados pela Polícia Judiciária com o número de processos que chegam a tribunal
verificamos que só 17 por cento chega a julgamento.
De 2002 a 2008, a PJ instaurou 8529 inquéritos por queixas relativamente
a crimes de abuso sexual de menores. No mesmo período, os tribunais julgaram 1489 processos pelo mesmo tipo de crime. Em média,
por ano, as autoridades abriram 1218 inquéritos e julgaram 212 processos.
A disparidade encontra justificação não
só no número de pendências - que leva a que muitos processos demorem a chegar a julgamento -, mas também no arquivamento de
muitas denúncias. Uma vez que, para haver justiça para todos, não basta denunciar um crime de pedofilia, é preciso prová-lo,
mesmo que demore mais de sete anos.
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