Paulo Oliveira já colocou a sua vida em risco várias vezes. Ao tentar evitar suicídios, por exemplo, esteve em sítios perigosos, mas foi dentro de um poço de elevadores que se calhar a sua vida correu maior perigo. Só teve real consciência disso no final da operação a que foi chamado na noite do feriado de 5 de outubro de 2016.

A chamada de emergência chegou depois do jantar. Alguém ficou preso num elevador. Como acontece habitualmente nestes casos, saiu um veículo de desencarceramento e um veículo pré-hospitalar. Nesta, tal como noutras situações de emergência em que é chamado, o sub-chefe Paulo Oliveira, com 35 anos de experiência ao serviço Bombeiros Voluntários de Almada, traçou na sua cabeça os cenários que poderia vir a encontrar. “Não gosto de agir sem pensar”, diz, acrescentando que o seu lema é “analisar rápido e agir rápido”.

 Foi isso que fez ao chegar a um edifício do Pragal onde uma criança de dois anos estava com o braço preso num dos dois elevadores do prédio. Os dados que tinha em mãos eram de um elevador que ia a subir e onde seguiam o avô, a avó e duas netas. Uma das netas, de dois anos, caiu e teve o azar de ficar com o braço preso entre a calha metálica na base da porta do elevador e a parede. Isto à altura do sexto piso.

Desde os 13 anos, altura em que começou a prestar serviço nos Bombeiros Voluntários de Almada, que está habituado a acompanhar situações de emergência como terceiro elemento (algo que hoje já não é possível). Depois de tantos anos de serviço, responder a emergências relacionadas com elevadores não poderia ser uma situação nova para Paulo Oliveira. 

A primeira preocupação foi retirar as pessoas que estavam bem do interior do elevador. A avó e uma neta saíram por uma passagem de 30 centímetros, mas o avô recusou-se a e deixar a neta Inês sozinha.

Apesar dos seus dois anos e de ter o braço preso, Inês não chorava. Rapidamente, Paulo Oliveira tomou a decisão de que seria ele a saltar para o cima da caixa do segundo elevador para, a partir daí, avançar com a operação de resgate. Reparou que o braço da criança não tinha sangue, mas estava já frio. Havia que ser rápido e jogar com toda a sua experiência. 

A sua preocupação era retirar a placa metálica o mais rapidamente possível. Para isso teve de se equilibrar numa barra com uma largura de 10 centímetros e, com o equilíbrio dos pés e das mãos e o telemóvel na boca para iluminar o elevador, demorou 15 minutos até conseguir fazer cair a chapeleira metálica para dentro do poço negro e fundo. O mesmo poço onde se arriscava a cair não fosse a sua perícia e coragem. 

Ao fim de 40 minutos do acidente, a Inês e o avô saíram pela mesma abertura de 30 centímetros que a avó e a outra neta já tinham passado. Depois da operação concluída, foi quando saiu e se agarrou a uma garrafa de água que o sub-chefe Paulo Oliveira viu como as suas pernas tremiam.

Olhando para trás, reconhece que o pior podia ter acontecido. “Correu bem, mas eu podia ter escorregado. Não pensei muito nisso”, confessa agora, agradecendo também todo o apoio que teve do resto da equipa que o acompanhou. 

Conviver com o risco é uma coisa a que já está habituado. “Corremos sempre algum risco. Os bombeiros têm de estar sempre preparados para qualquer situação ou tipo de ocorrência.” Daí que o seu conselho para quem quer seguir os seus passos é o de fazerem todas as formações que conseguirem. “Estudem e aprendam mais do que é exigido. Isso é muito importante.”

Foi isso que tentou fazer ao longo da sua carreira e, hoje, aos 48 anos falar com a autoridade de quem é o trabalhador da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Almada com mais anos de serviço. Foram os laços familiares que o levaram a entrar ao serviço dos bombeiros - tinha dois tios ao serviço -, mas foi depois o gosto, a dedicação e a formação que o levaram a chegar até ao reconhecimento de que foi alvo nos últimos dois anos.

Em 2016, por altura, do Dia Mundial do Bombeiro, recebeu a Medalha de Ouro de Bons Serviços por 30 anos de serviços prestados à causa pública, atribuída pela Câmara Municipal de Almada. No ano seguinte, foi pela mão do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que recebeu a Medalha de Ouro de Mérito de Proteção e Socorro - Prémio Bombeiro de Mérito 2016 atribuída pela Liga dos Bombeiros Portugueses.

Foi com orgulho que recebeu os prémios e que viu as várias reportagens em que foi protagonista, mas a maior satisfação vem sempre quando consegue completar as suas missões com sucesso, como aconteceu no caso da pequena Inês. Assistida de imediato e tendo sido logo alvo de uma cirurgia, a criança de dois anos conseguiu salvar o braço devido à rapidez e perícia da operação de resgate. 

Reconhecendo estas qualidades do trabalho de bombeiro, o Grupo Mosqueteiros (que detém os supermercados Intermarché), em parceria com a Liga dos Bombeiros Portugueses, lançou o livro infantil “Bombeiro dos pés à cabeça”, cujas receitas revertem para a compra de equipamentos que ajudem os nossos “soldados da paz”. 

O preço é de 1,99 euros e o livro conta com um prefácio escrito pela apresentadora Isabel Silva, que também é a embaixadora da campanha juntamente com Manuel Luís Goucha. 

Bombeiro dos pés à cabeça” está à venda até ao próximo dia 31 nos espaços Intermarché, Bricomarché e Roady.