Dulce Leitão tem apenas 28 anos e já prestou serviço em muitos incêndios e em muitas situações de emergência. Nenhum lhe ficou particularmente na memória até ao dia 22 de agosto de 2016. Esse foi o dia que a marcou para sempre. Era já noite, ela e três colegas estavam no piquete de incêndios e iam render os colegas de Marco de Canaveses no turno das 23h às 7h da manhã. Seguiam na A4, quando viram um acidente.

Este era mais um acidente como tantos outros que Dulce já tinha ajudado a socorrer desde que acabou a formação inicial de bombeiro em 2013, prestando serviço nos Bombeiros Voluntários dos Carvalhos. Estava escuro, pararam e foram dar assistência ao carro que se tinha despistado e embatido no separador central, mesmo na faixa da esquerda. Apesar do aparato, o senhor estava bem, mas não era o único que precisava de assistência. Uns metros mais atrás alguém acenava aos bombeiros a pedir ajuda. Não havia feridos, mas a senhora que conduzia o carro estava em estado de pânico ao ter acabado de assistir ao acidente.

Dulce predispôs-se logo a ajudar. No seu modo voluntário, mas sempre profissional de quem não vê a sua vida sem a farda de bombeira - “é a minha missão de ajudar as pessoas” - dirigiu-se para o carro e foram esses passos que marcaram para sempre a sua vida. Caminhava em sentido contrário ao dos carros e, de repente, viu o seu colega que estava a sinalizar o acidente a fazer gestos muito rápidos.

À sua frente tinha o carro da senhora que precisava de assistência, atrás desse estava parado um outro carro e, sem conseguir parar, vinha ainda um terceiro carro descontrolado. A sucessão de acontecimentos começa aí: depois de bater num primeiro carro, o que estava à frente foi projetado e Dulce só conseguiu ver um rapaz completamente desamparado.

Veio a saber depois que era o João, um rapaz de 12 anos, que nem sequer vive em Portugal. Ainda hoje mantém a relação com ele e com a família, ficando ainda mais certo o lema que traz consigo: “Ser bombeiro é fixe, salvar vidas é fixe, mas temos de fazê-lo de forma profissional. Não podemos ficar só pelo básico, temos de testar as nossas capacidades.”

Foi isso mesmo que fez nessa noite. Com escassos segundos para pensar, pegou o João pelos ombros e atirou-o para a ravina. Ficaram outros escassos segundos para pensar o que havia de fazer. “Tinha duas hipóteses: ou saltava para o capô do carro ou atirava-me para a ravina”, conta um ano depois. Não foi a tempo! O carro apanhou-a pelo lado esquerdo e projetou-a na diagonal a uma distância de 10 metros para a ravina.  

Um dos colegas bombeiros apressou-se a socorrer o João e não se apercebeu do que tinha acabado de acontecer a Dulce. Foram os populares de uma rua abaixo da ravina que deram o alerta. Sempre consciente e cheia de dores, Dulce percebeu que algo tinha acontecido à sua perna esquerda. 

Desde aí e até hoje, a história de Dulce é uma história de força, determinação e muita vontade de vencer. Partiu a tíbia e o perónio, ainda foi colocada a hipótese de amputação da perna, resistiu a três operações, deixou a cadeira de rodas e também já não anda de canadianas. Mas há ainda algumas batalhas para vencer: tem de conseguir voltar a correr, estar de joelhos mais do que cinco minutos sem sentir dores horríveis e fazer com que a perna esquerda se assemelhe mais com a direita (neste momento tem menos um centímetro de altura e precisa de ganhar a massa muscular que perdeu).

Foram meses de luta, com a mesma garra e vontade que a levaram a insistir com a mãe quando pediu para fazer parte de uma fanfarra depois de ter assistido a um concerto. Ingressou na Fanfarra dos Bombeiros de Coimbrões tinha por volta de oito anos e era a menina que ia sempre à frente com o bastão. É desde aí que vem a sua ligação aos Bombeiros.

O acidente atrasou o seu curso de enfermagem - a sua outra grande paixão -, mas ainda assim Dulce sente que teve sorte e que as coisas não acontecem por acaso. “Agradeço todos os dias a segunda vida que tenho”, diz. “O acidente foi tudo: foi fazer aquilo de que gosto, vestir uma farda de que gosto e de que me orgulho, foi a ajuda dos colegas e foi o agradecimento do João e da família.”

No final veio o reconhecimento também através da condecoração como um dos Bombeiros de Mérito de 2016, entregue pelas mãos do Presidente da República. Pelo prémio, pelo reconhecimento e pelos breves momentos com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que muito admira - e com quem conseguiu tirar a célebre selfie - foi um momento inesquecível.

Diz que não é por ter recebido o prémio que vai mudar aquilo que é, mas sente-se orgulhosa. Afinal, tudo acontece por um motivo. Já o motivo que a levou a chegar a Bombeiro de Mérito tão cedo é uma pergunta que para já a não sabe responder. Só tem uma certeza: “A resposta virá a caminho.”

Para melhorar o trabalho dos bombeiros portugueses, o Grupo Mosqueteiros (que detém os espaços Intermarché, Bricomarché e Roady), em parceria com a Liga dos Bombeiros Portugueses, lançou o livro “Bombeiro dos pés à cabeça”, especialmente escrito para o público infantil e que transmite mensagens bastante importantes, relacionadas com a prevenção de incêndios e não só.

Com um preço de 1.99 euros, o livro tem prefácio de Isabel Silva (embaixadora da campanha, juntamente com Manuel Luís Goucha) e está à venda em todo o país nos espaços Intermarché, Bricomarché e Roady até ao próximo dia 31. As receitas revertem para a compra de equipamentos.