Na vida de um bombeiro, não existem nem horários, nem calendários. Independentemente da hora do dia, do dia da semana ou de a semana fazer parte de uma quadra festiva, esta classe tem de assegurar sempre os serviços mínimos: as ocorrências nunca tiram férias. Tal como a corporação de Linda-a-Pastora, no concelho de Oeiras.

O silêncio imperava no quartel desses bombeiros naquele sábado de 2014. Um sábado que era especial fora das portas da corporação – afinal, apenas tinham passado 48 horas após o dia de Natal. Mas, dentro do quartel, aquela época era igual aos dias mais comuns para os 10 elementos que se encontravam a postos para qualquer urgência. 

De madrugada, por volta das 03:00, os “soldados da paz” estavam a ter um merecido descanso. Todos dormiam. A única exceção era a operadora da central, Joana Vieira, sempre atenta. O telefone podia tocar a qualquer momento. E assim foi: às 03:25 em ponto, os bombeiros foram alertados para uma moradia que estava em chamas na Rua Roberto Ivens. 

Imediatamente despertos, os operacionais equiparam-se, tendo sido definido quem ia no veículo de combate a incêndios (que transportou 6 elementos) e na ambulância (que transportou 3 membros). Em cinco minutos, os bombeiros estavam a sair do quartel e, dois minutos depois, já tinham chegado à Rua, que conta com uma distância de dois quilómetros da corporação.

Foram poucos segundos de trajeto, mas os necessários para se ultimarem detalhes relacionados com o equipamento de proteção individual, o que incluía o aparelho respiratório.

O primeiro salvamento entre tanto caos

Uma estranha calma estava instalada na Rua, praticamente deserta. Nada fazia antever o acontecimento calamitoso que ali estava a ocorrer. Ou quase. Mesmo antes de ver a moradia, os bombeiros começaram a sentir um forte cheiro a fumo. Conforme se iam aproximando da habitação, o odor foi-se tornando cada vez mais intenso e a adrenalina dos operacionais foi aumentando, até que, finalmente, vislumbraram a casa. As chamas lavravam com grande intensidade e havia um forte fumo negro à volta.

Quando saíram das suas viaturas, os bombeiros deram de caras não só com quem tinha falado com o 112, mas também com o proprietário da casa – Paulo Oliveira –, que tinha acabado de resgatar a sua filha, Rita (na altura, com oito anos), e estava prestes a entrar novamente na moradia. 

Mal viu os bombeiros, Paulo explicou ao operacional Pedro Vicente, que chefiava a missão, onde se encontravam os outros dois membros da família: no último quarto do primeiro piso. 

Sem hesitar, Pedro Vicente ordenou que entrasse uma parte da equipa do veículo de combate, ou seja, quatro bombeiros, sendo que um quinto elemento permaneceu no exterior, para manobrar a bomba. Os operacionais tinham decidido adotar uma estratégia ofensiva: sendo assim, tentou-se combater o incêndio a partir do interior da moradia, enquanto decorria a busca pela mulher de Paulo, Marta, e pelo filho mais velho, o pequeno Tomás, então com 11 anos.

Foram necessários três minutos para os bombeiros conseguirem alcançar o primeiro piso. Logo a partir da entrada, os operacionais enfrentaram muito fumo e calor. Assim que subiram para o andar, entenderam por que estavam a lidar com um cenário tão caótico: é que o incêndio, que inicialmente estava confinado num dos quartos, já se tinha alastrado para o corredor. 

Praticamente para onde quer que olhassem, os bombeiros apenas se defrontavam com um fumo muito espesso e com a progressão das chamas. Além disso, as elevadas temperaturas que surgiam da combustão também dificultavam os trabalhos. 

Os momentos foram de tensão. Ao mesmo tempo que se tentavam proteger da ameaça do incêndio, era obrigatório que os bombeiros chegassem rapidamente junto das vítimas antes que fosse tarde demais. 

Instantes depois, alcançou-se a primeira vitória: os operacionais conseguiram abrir uma janela do lado esquerdo, para que entrasse o ar frio de dezembro e saísse o denso fumo, o que, sem dúvida, facilitou a travessia de um corredor que parecia mais longo do que era na realidade.

Passado pouco tempo, Diogo Palma foi o jovem bombeiro que, entre tanto fumo e fogo, vislumbrou Marta, que estava inconsciente. Sem pensar em mais nada, comunicou via rádio o feliz acontecimento por que todos aguardavam fora da casa. 

“O nosso treino é contínuo e repetimos vezes sem conta alguns procedimentos. É por isso, que, muitas vezes, um resgate acaba por ser uma prática em que não pensamos em mais nada. Só nos concentramos em salvar aquela vida; em fazer o nosso trabalho para o qual já treinámos bastante”, comenta Diogo. 

Foi assim que o jovem, agora com 25 anos, agiu. Com o apoio de Pedro Vicente e seguindo as indicações do Adjunto de Comando José Miranda, que, entretanto, estabeleceu contacto com a equipa de intervenção, Diogo conseguiu escapar do fumo e das chamas – que estavam cada vez mais intensas – e salvar Marta.

Quando o medo dá lugar à sensação de missão cumprida

Enquanto a vítima estava a ser assistida pela equipa de socorro, um sentimento de impotência invadiu Diogo: afinal, ainda não tinha conseguido trazer o Tomás, que se encontrava inconsciente na mesma divisão onde estava a mãe.

“Aí sim, a emoção tomou conta de mim. Além de já estar um pouco cansado e desgastado, comecei a lembrar-me dos meus sobrinhos, que têm a mesma idade do Tomás. Senti o meu coração muito apertado. Nunca pensei em desistir, mas tive medo de não conseguir resgatar a criança a tempo. Tive medo de falhar”, recorda-se.

Juntamente com Pedro Vicente, Diogo regressou depressa à casa para salvar o menor. Não foi uma tarefa fácil: conforme os minutos iam passando, as temperaturas da moradia só aumentavam e o fumo permanecia bastante denso. Felizmente, entre tanto caos, Diogo encontrou Tomás, pegou-lhe ao colo e resgatou-o. Tal como a mãe, a criança recebeu assistência da equipa de Emergência Pré-Hospitalar, que, além da ambulância da corporação de Linda-a-Pastora, ainda era constituída por duas ambulâncias dos Bombeiros Voluntários de Carnaxide e duas viaturas médicas do INEM, que tinham chegado ao teatro de operações. 

Logo depois do salvamento das vítimas e do combate ao incêndio, em vez do esperado alívio de uma missão tão difícil, que durou mais de duas horas, Diogo e os restantes operacionais ainda se reuniram com o chefe de equipa para fazer um balanço de tudo o que tinha acabado de acontecer: “É sempre um momento importante e habitual na nossa corporação. São alguns minutos de reflexão. Partilhamos o que correu bem, o que podia ter corrido melhor… Dividimos ainda as nossas emoções e até esclarecemos algumas dúvidas”, refere o jovem operacional.

Um salvamento tão exigente impunha um bom descanso. E assim foi: depois da reunião, tal como outros bombeiros, Diogo conseguiu repousar e dormir. No entanto, ainda demorou algum tempo até atingir essa plena sensação de paz: inquieto, o jovem não conseguia deixar de pensar na evolução do estado de saúde das vítimas.

Uma ligação para a vida

Havia razões para essa perturbação de Diogo: Marta e Tomás estavam a passar por sérias dificuldades de saúde devido à inalação de monóxido de carbono e às queimaduras. Por esse motivo, Marta esteve em coma quase uma semana e internada durante 15 dias. Tomás também permaneceu alguns dias em coma e ficou quase um mês no hospital. 

O caso de Paulo foi bem mais grave. Ao longo do resgate, o marido de Marta não quis ser examinado pelos socorristas e não parou um único segundo, entre o apoio à filha Rita e a ajuda aos bombeiros para a instalação dos meios de ação. Só que, quando já estava no hospital, acabou por desmaiar, devido à inalação dos fumos tóxicos.

Com internamento imediato no serviço de Medicina Intensiva do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Paulo ficou em coma durante 38 dias. Quando despertou, esperava-lhe um longo período de recuperação… e uma curiosa mudança de vida.

Além de ter ficado internado ao longo de três meses, o pai de Rita e Tomás só conseguiu recuperar totalmente passado um ano e três meses com uma série de tratamentos em ambulatório: desde Pneumologia a Neurologia, passando por Cirurgia Vascular e Fisioterapia.

Mais do que uma nova oportunidade para viver, a recuperação total permitiu que Paulo desenvolvesse uma relação próxima com a corporação que salvou a sua mulher e filho: desde março de 2016, ocupa o cargo de 2º Secretário da Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Linda-a-Pastora, em regime de voluntariado. 

Orgulho e sentido de missão

A vida de Diogo também mudou com este salvamento: “Agora sinto que sou mesmo bombeiro. A minha vontade de seguir este percurso aumentou. Tenho muito mais vontade de treinar para ser cada vez melhor. Além disso, para a corporação em geral, sinto que esta missão reforçou os laços de companheirismo”.

Além de os elementos envolvidos na missão terem sido agraciados com um louvor coletivo pela corporação, o comando ainda optou por conceder uma Medalha de Coragem e Abnegação a Diogo, em julho de 2015: “É um reconhecimento de uma missão que foi cumprida com êxito. Significa que estou no caminho certo. Contudo, não posso deixar de partilhar esta Medalha com todos os meus camaradas. O sucesso desta intervenção deve-se ao trabalho de equipa”, sublinha o bombeiro.

Este foi com certeza um dos momentos altos do percurso de Diogo nos bombeiros, um caminho que se iniciou há 11 anos: “Tudo começou em 2006. Éramos 4 amigos e queríamos salvar vidas e viver um pouco de adrenalina. Fui cadete entre 2006 e 2012 e, a partir desse ano, tornei-me bombeiro de 3ª”.  

Sendo bombeiro voluntário e profissional, o jovem sente-se especialmente orgulhoso das missões em que já representou o nosso país lá fora: “Destaco a minha participação na FOCON (Força Operacional Conjunta), em 2015. Tratava-se de uma equipa criada para ajudar a Espanha no combate aos incêndios florestais. Senti que levava a força de todos os portugueses para ajudar o país vizinho. Tenho muito orgulho dessa missão”.

Demonstrando também todo o seu orgulho pelo trabalho dos bombeiros portugueses, o Grupo Os Mosqueteiros (que detém os espaços Intermarché, Bricomarché e Roady) lançou o livro infantil “Bombeiro dos pés à cabeça”. 

O lançamento desta obra resulta de uma parceria com a Liga dos Bombeiros Portugueses. O livro conta com prefácio de Isabel Silva, embaixadora da campanha, juntamente com Manuel Luís Goucha.

“Bombeiro dos pés à cabeça” está à venda em todo o país nos espaços Intermarché, Bricomarché e Roady até ao dia 31. Tem um preço de 1.99 euros e as receitas revertem para a compra de equipamentos.