Médicos de vários países querem que a relação entre o clínico e o paciente seja classificada como Património Imaterial da Humanidade, anunciou esta quinta-feira, em Coimbra, o presidente do conselho geral da organização profissional dos médicos de Espanha.

Estamos a preparar um projeto de candidatura à classificação, pela UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura], da relação médico/doente como bem imaterial da Humanidade”, disse Juan José Rodríguez Sendín durante uma conferência internacional de médicos.

Sendín é presidente do conselho geral dos Colégios Oficiais dos Médicos espanhóis – Organización Medica Colegial de España (OMC) – entidade que equivale, de algum modo, à Ordem dos Médicos (OM) portuguesa e que reúne 52 associações profissionais daquele país.

A relação do médico com o doente é “fundamental para os resultados em saúde”, é “fundamental para o doente, que precisa de ter em quem possa confiar e depositar as suas angústias, os seus medos e as suas ansiedades” e é “fundamental para o médico, que tem de ter a confiança do paciente” para melhor diagnosticar e tratar, sublinhou Rodríguez Sendín, em declarações à agência Lusa, à margem do Fórum Ibero-americano de Entidades Médicas, que teve início hoje, num hotel de Coimbra, e que termina no sábado.

Muitas doenças “não se tratam só com medicamentos” e estes podem, frequentemente, ser dispensados e “com melhores resultados para o doente” se houver aquela relação, sublinha o médico espanhol.

Mas, adverte, a relação/médico está a “baixar a humanização” porque é cada vez menos o tempo disponível para as consultas, correndo mesmo “o perigo de se perder, com “consequências terríveis” para os sistemas de saúde, salienta o dirigente da OMC.

O tempo é a base da relação médico/doente”, defendeu, em declarações à agência Lusa, também à margem do fórum, o bastonário da OM, José Manuel Silva, que apoia também a candidatura daquela relação a Património Mundial.

Sem tempo para “ouvir o doente e para lhe “explicar as razões das decisões” dos clínicos, “não é possível construir uma relação saudável” entre o médico e o doente

Perde-se a essência da medicina, que é o estabelecimento dessa relação de confiança”, salienta o bastonário.

“Sofremos da doença dos indicadores, em que se avalia a produtividade da medicina pela quantidade dos atos produzidos e não pela qualidade dos resultados desses atos”, afirma José Manuel Silva, sublinhando que é preciso “dar tempo para que o médico recupere a boa medicina”.

A falta de tempo para as consultas médicas resulta de fatores “questões economicistas (e não económicas)”, que “redundam em prejuízo”, sustenta o bastonário da OM, recordando que o relatório da Fundação Gulkenkian sobre o SNS alertando para o facto de a perda de qualidade do ato médico ser “não só má para o doente, mas também para a economia”.

O projeto de candidatura da relação/médico doente a Património Imaterial, que conta com o apoio de médicos e organizações destes profissionais de alguns países, será apreciado pela assembleia geral da Confederação Médica Latino-Americana e do Caribe [ou Caraíbas] (CONFEMEL), que decorrerá, em final de novembro, em Brasília, Brasil, adiantou Rodríguez Sendín.

A CONFEMEL é uma entidade não-governamental que reúne instituições médicas do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Costa Rica, Guatemala, Haiti, Honduras, El Salvador, República Dominicana, Nicarágua, Panamá, Porto Rico, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai e, desde 2015, de Portugal e Espanha.