O presidente do Banco Privado Atlântico admitiu esta terça-feira ter indicado o advogado Proença de Carvalho ao administrador do BCP Iglésias Soares para que o ex-procurador Orlando Figueira tratasse dos problemas sobre pagamentos do contrato de trabalho.

Carlos José da Silva respondia, na qualidade de testemunha, a perguntas do advogado Rui Patrício, mandatário do arguido Armindo Pires no processo Operação Fizz, em que o ex-procurador Orlando Figueira está acusado de corrupção passiva e outros crimes graves.

No segundo dia de interrogatório, o banqueiro luso-angolano insistiu que "não teve conhecimento" da abertura de conta de Orlando Figueira no Banco Privado Atlântico (BPA) Europa, mas admitiu que Iglésias Soares, do BCP, o indagou sobre o facto de o ex-magistrado, a trabalhar no mesmo banco, se queixar que tinha contrato com Angola e que o mesmo não estava a ser cumprido.

Carlos Silva disse ter transmitido a Iglésias Soares que não tinha conhecimento desses factos, de não ter "nada pendente" com tal beneficiário, e terá sugerido ao administrador do BCP que o ex-procurador recorresse aos serviços de dois advogados que conhecia: Proença de Carvalho e Frutuoso de Melo.

Questionado sobre a sua ligação a Proença de Carvalho, o banqueiro revelou que o advogado português só o representou uma vez num processo em que os seus fluxos financeiros estiveram sob investigação, não adiantando mais pormenores.

A testemunha insistiu não estar a par da contratação de Orlando Figueira para a banca, apesar de ter sido confrontado com emails para si enviados pelo advogado Paulo Blanco, também arguido neste processo.

Carlos Silva voltou a transmitir a ideia de que os emails eram filtrados pela sua assistente e que nem sempre dava importância às insistências e às mensagens de Paulo Branco, apesar de este advogado representar interesses angolanos.

Carlos Silva disse também "nada ter a ver" com a passagem de Orlando Figueira do Millenium/BCP para o Ativo Bank, numa segunda fase do trabalho deste na banca portuguesa.

Quanto ao almoço que teve num hotel em Lisboa com Orlando Figueira, em 2011, o banqueiro voltou a dizer que foi apenas de cortesia e que não se falou de trabalho.

No almoço não se falou de processos", assegurou o banqueiro, que foi confrontado por Rui Patrício com uma série de emails enviados por Paulo Blanco e em que a testemunha evidenciou não ter dado muita relevância ou nem sequer ter tomado conhecimento.

Quanto às relações com Paulo Blanco, disse que as mesmas eram "relações formais boas", mas afastou qualquer amizade próxima, apesar de nalguns emails o advogado o tratar por "tu".

Carlos Silva demarcou-se de ligações profissionais com o antigo presidente da Sonagol Manuel Vicente, também visado no processo.

O banqueiro continua a negar que tivesse oferecido emprego a Orlando Figueira para ir trabalhar para o BPA Angola, contrariando declarações de Orlando Figueira que o aponta como responsável pelo seu contrato de trabalho, nunca cumprido, para ir trabalhar para o BPA Angola.

A Operação Fizz assenta na acusação de que o ex-vice-Presidente angolano, Manuel Vicente, corrompeu Orlando Figueira, com o pagamento de 760 mil euros, para que este arquivasse dois inquéritos, um deles o caso da empresa Portmill, relacionado com a aquisição de um imóvel de luxo no Estoril em 2008.

Após a separação da matéria criminal que envolve Vicente, que foi também presidente da Sonangol, o processo tem como arguidos Orlando Figueira, o empresário Armindo Pires e Paulo Blanco.

O ex-procurador do DCIAP está pronunciado por corrupção passiva, branqueamento de capitais, violação de segredo de justiça e falsificação de documentos, o advogado Paulo Blanco por corrupção ativa em coautoria, branqueamento também em coautoria, violação de segredo de justiça e falsificação de documento em coautoria.