A Inspeção-Geral de Atividades em Saúde (IGAS) arquivou os inquéritos abertos após a morte de oito utentes que, no inverno passado, aguardaram várias horas em serviços de urgência de Lisboa, Almada, Setúbal, Peniche, Santarém, Aveiro e Santa Maria da Feira.
 
De acordo com os jornais Público e Correio da Manhã, a IGAS entende que as mortes não podem ser imputadas aos profissionais de saúde envolvidos, mas propôs uma série de mudanças de “natureza administrativa”, cuja “implementação” promete vigiar. 
 
As oito mortes ocorreram em dezembro do ano passado e janeiro de 2015 nas urgências dos hospitais de São José (Lisboa), Garcia de Orta (Almada, onde se registaram dois casos), Setúbal, Peniche, Santarém, Aveiro e Santa Maria da Feira.
 
Então, os vários serviços de urgência viviam situações caóticas devido ao pico da gripe e do frio, com os familiares dos doentes a queixarem-se de longas horas de espera e relatos de falta de camas nos hospitais públicos.
 
Destes oito casos, o Ministério Público investigou três por sua iniciativa. Já em maio tinha sido arquivado o inquérito do idoso, de 80 anos, que morreu no São José, e que foi encontrado morto numa maca pelo filho. Também as situações registadas nos serviços de urgência dos hospitais de Peniche e Santa Maria da Feira acabaram por ser arquivadas.


Bastonário dos médicos lamenta arquivamento


O bastonário da Ordem dos Médicos lamentou, nesta quarta-feira, que a IGAS não tenha instituído processos disciplinares aos conselhos de administração dos hospitais na sequência das mortes nas urgências no inverno passado.

“A IGAS deveria ter avaliado as suas responsabilidades, que são objetivas nestas situações, porque os conselhos de administração dos hospitais e as direções clínicas não prepararam adequadamente os seus serviços de urgência para uma situação que em todos os invernos é previsível: o aumento da procura dos serviços de urgência e da necessidade de internamento”, defendeu  José Manuel Silva, em declarações à agência Lusa, nesta quarta-feira.

O bastonário considerou também que "o Ministério da Saúde deveria apresentar já um plano de contingência para o próximo inverno". "Um plano para o aumento do número de camas hospitalares, de contratação de profissionais para os serviços de urgência e de flexibilização de horários nos cuidados de saúde primários, que no passado inverno foi feito tarde por causa dos cortes excessivos impostos ao Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, sustentou.

Na opinião de José Manuel Silva, este arquivamento dos inquéritos “era previsível, pois os hospitais não estavam preparados adequadamente devido aos cortes excessivos”.

“Contudo, queria também sublinhar a estranha coincidência de, só três dias depois das eleições, ser divulgado o relatório do programa nacional de vigilância da gripe 2014/15. Certamente, não será só uma coincidência, e veio demonstrar o enorme excesso de mortalidade que houve este inverno, essencialmente devido à gripe e ao frio como acontece em todos os invernos, mas que este ano atingiu um pico tremendo”, observou.

Segundo o responsável, a Ordem já esperava que não houvesse responsabilização dos profissionais diretos.

“Coitados. Estavam a trabalhar para além dos seus limites e em circunstâncias difíceis. Agora, deveriam ter sido instituídos processos disciplinares aos conselhos de administração e às direções clínicas”, concluiu.