A Ordem dos Médicos afirma que há várias centenas de doentes em Portugal ainda sem acesso aos tratamentos para a hepatite C, já propostos pelos médicos mas que aguardam autorização superior.

Salientamos que continuam a existir a nível nacional várias centenas de doentes cujos tratamentos propostos pelos respetivos médicos continuam a aguardar a necessária autorização da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), sem a qual os doentes não podem ser tratados”, refere o bastonário da Ordem, Miguel Guimarães, numa nota divulgada hoje, Dia Mundial das Hepatites.

A Ordem dos Médicos alerta ainda para o facto de a negociação feita com a indústria farmacêutica ter “aparentemente esquecido” os doentes com genótipo 2, uma das variações do vírus da hepatite C.

Apesar de ser um subtipo minoritário, a Ordem considera que “os seus portadores não podem ter menos direitos ao tratamento adequado”, sublinhando que isso coloca “problemas de índole ética e legal insustentáveis” e que “podem ter graves repercussões” sobre a saúde desses doentes.

É impensável não tratar estes doentes tal como os restantes”, escreve o bastonário Miguel Guimarães.

A Ordem dos Médicos lamenta ainda que, “por um esquecimento” na negociação, a disponibilização desses medicamentos a estes doentes “venha onerar diretamente os hospitais com custos muito superiores aos que teriam” se a negociação tivesse previsto esta situação.

Esta situação deve ser reduzida rapidamente”, apela Miguel Guimarães.

A Ordem dos Médicos sublinha ainda a necessidade de se realizar um rastreio nacional de modo a conhecer a realidade do país quanto ao número de doentes com hepatite C, por haver uma aparente disparidade entre o número de infetados assumido pelo Governo e aquele que os especialistas estimam.

Vários peritos, grupos de médicos e representantes de doentes têm defendido há uns anos um rastreio nacional à hepatite C.

 

Quase 3.500 mortes prematuras evitadas 

O tratamento com os novos fármacos para a hepatite C evitou, no primeiro ano de aplicação, 3.477 mortes prematuras e 339 transplantes hepáticos, poupando ao Estado 271,4 milhões de euros com tratamentos das consequências da evolução da doença.

Os dados foram hoje divulgados durante a apresentação do relatório sobre as hepatites virais em 2016 e início de 2017.

Segundo Isabel Aldir, diretora do Programa Nacional para as Hepatites Virais, estes números revelam “o sucesso da estratégia” contra a hepatite C adotada por Portugal, que já negociou um novo acordo que permite a administração destes novos fármacos aos portadores da doença.

De acordo com esta responsável, foram já iniciados 11.792 tratamentos. Dos 6.880 doentes que já concluíram tratamento, 6.639 estão curados, o que representa uma taxa de sucesso superior a 96%.

Isabel Aldir sublinhou que os tratamentos permitiram ganhos de 62.869 anos de vida, somando o tempo de vida ganho por cada pessoa doente.

Estes tratamentos evitaram ainda 339 transplantes hepáticos, 1.951 carcinomas hepatocelulares e 5.417 casos de cirrose.

Isabel Aldir alertou para a necessidade destes doentes receberem o tratamento mais atempadamente, tendo em conta que 30% dos doentes que o iniciaram já apresentavam cirrose e 18% pré-cirrose.

No Dia Mundial das Hepatites, os dados hoje revelados indicam que, em Portugal se estima que 0,4 a 1% da população seja portadora de hepatite B. Quanto à hepatite C, mais de 17 mil pessoas estão assinaladas como vivendo com a infeção crónica.

No que respeita à hepatite A, o relatório dá conta de 378 casos de janeiro até 30 de junho. A Direção-geral de Saúde divulgou na quinta-feira novos dados que apontam para 402 casos confirmados da infeção.