A Opus Gay deu o alerta: muitos idosos homossexuais, mesmo aqueles que “assumiram e vivenciaram livremente” a sua orientação sexual, tendem a “regressar ao armário” com o passar da idade, por receio de não serem aceites e compreendidos.

Para combater o “regresso ao armário” de pessoas que “merecem viver a sua velhice de uma forma plena, sem medos, receios e ansiedade que os anulem enquanto seres humanos”, a associação criou o projeto “Envelhecer fora do armário”, que vai desenvolver na capital, através de um protocolo assinado com a Câmara Municipal de Lisboa esta quinta-feira. 

Em declarações à agência Lusa, o presidente da associação, António Serzedelo, defendeu que é preciso “sensibilizar a população jovem, por um lado, e a LGBT, por outro, para este problema dos gay e das lésbicas idosos que estão atirados para uma solidão e para enfrentar problemas que não enfrentaram quando eram mais novos”.

António Serzedelo sublinhou que a experiência destes idosos, muitos dos quais “lutaram pelos direitos dos homossexuais”, poderá constituir “uma mais-valia e uma fonte de determinação e coragem para os mais jovens que convivem diariamente com situações de homofobia, violência doméstica e discriminação social em função da sua orientação sexual”.

A Opus Gay pretende com o projeto preencher “uma lacuna há muito latente” nesta área de intervenção específica no concelho de Lisboa, promovendo uma “cidadania mais ativa e mais social e socializante”, principalmente entre os cidadãos LGBT.

Com a duração de um ano, o projeto inclui atividades diversificadas com atuação em várias vertentes: sociais, de lazer/lúdicas, de cidadania, de inclusão e não discriminação que visam “uma melhor qualidade de vida”.

“É um projeto inovador em Portugal e fraturante”, porque a sociedade portuguesa “não tem sensibilidade para estas questões da terceira idade”, vendo os idosos apenas como um grupo inútil, que tem doenças e vai onerar o erário público com os tratamentos e medicamentos que tem de comprar”, disse à Lusa.

O presidente da associação está convicto de que se as pessoas tiverem ocupações mentais e físicas que as façam sair de casa muitas das doenças vão desaparecer, tendo proposto à autarquia que organizasse nas praças públicas e nos jardins aulas de ginástica duas vezes por semana.

Defendeu ainda que “já é tempo” de os governantes criarem uma secretaria de Estado da terceira idade.

Outro aspeto relevante que afeta os idosos é a dificuldade no reconhecimento da existência de práticas sexuais na terceira idade e, como consequência, a quase inexistência de campanhas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis que promovam a formação e informação da população idosa relativamente a estes perigos.

Um estudo efetuado no Reino Unido pela YouGov sobre a problemática da solidão na população idosa, demonstrou que os homossexuais e os bissexuais têm três vezes mais probabilidade de envelhecer solteiros e que apenas um quarto dos gays e metade das lésbicas têm filhos, muito diferente da realidade da população idosa heterossexual, na qual 90% têm filhos.