José Sócrates reagiu, esta sexta-feira, à acusação do Ministério Público na Operação Marquês garantindo que não foi um primeiro-ministro corrupto e dizendo que "esta acusação não passa dos insultos habituais que o MP” lhe tem dirigido ao longo dos últimos anos. 

Não fui [um primeiro-ministro corrupto] e pelo contrário honrei sempre o meu cargo com um comportamento de total honestidade. Grande parte da acusação não passam dos insultos habituais que o ministério público me dirigiu nos últimos anos. Como é que o Ministério Público prova aquilo que diz, fundamenta aquilo que diz?”, afirmou em entrevista à RTP1.

O ex-primeiro-ministro garante ainda que o processo é um "embuste" e "nunca foi uma investigação a um crime": "Foi uma perseguição a um alvo".

E vai mais longe, garantindo que o Ministério Público não tem como provar que "o dinheiro é de facto do engenheiro José Sócrates".

O embuste inicial do MP é que eu tinha uma fortuna escondida. Com base em que prova o MP pode fazer uma afirmação destas? Nem nestas folhas nem em nenhum documento encontrará alguém a dizer que o dinheiro é de facto do engenheiro José Sócrates”, disse.

De quem era o dinheiro?

Confrontado com a acusação de que recebeu 24 milhões de euros que passaram por contas na Suíça disponibilizadas por Joaquim Barroca e por sociedades de Carlos Santos Silva, José Sócrates diz que em "nenhuma das folhas que estão no processo" será possível encontrar "um único testemunho de alguém que disse «o dinheiro é do engenheiro José Sócrates»".

Mas encontra muitos documentos que provam o contrário. (...) Nos documentos só está o nome “Carlos Santos Silva”. Há muitos documentos, mas estão escondidos. Esses documentos provam não que o dinheiro é meu, mas que o dinheiro pertence legitimamente ao engenheiro Carlos Santo Silva. O Ministério Público escondeu que nas contas da Suíça o meu nome nunca figurava. Escondeu isso e escondeu durante três anos".

Considerando que o "Ministério Público deteve e prendeu para investigar, para amesquinhar”, o ex-primeiro-ministro afirma que "toda esta acusação está fundada em várias e plurais mentiras".

O que acontece é que estas mentiras não progredirão porque as pessoas sabem que não foi assim que aconteceu".

O discurso de José Sócrates manteve-se no mesmo tom ao longo de toda a entrevista: "O Ministério Público mentiu". Foi o que o ex-primeiro-ministro voltou a afirmar quando confrontado com os levantamentos feitos por Carlos Santos Silva para entregar a José Sócrates.

Em 2013 o engenheiro Carlos Santos Silva ofereceu-se para me ajudar e assim foi. Nós temos uma relação fraterna. Somos amigos há 40 anos. Conheci-o na Covilhã. Isso [os levantamentos] é mentira. O Ministério Público se diz isso, mente como mente em muitas outras coisas, mas o que eu o desafio é "faz favor de provarem". O único momento em que o engenheiro Carlos Santos Silva se ofereceu para me ajudar, foram esses empréstimos. (...) O engenheiro Carlos Santos Silva é um homem sério e honesto. Por isso não posso aceitar essas falsidades do Ministério Público. 

Falar em código

"Os amigos constroem um mundo em comum, tem as referências em comum". É desta forma como que justifica a maneira de pedir dinheiro a Carlos Santos Silva que investigadores intercetaram em conversas do ex-primeiro-ministro com amigo: pede-lhe que lhe leve "fotocópias”, "livros" ou "aquela coisa de que gosta muito".

Eu não tenho nenhuma memória disso e não admito isso. Pelo contrário, nos temos um modo de falar. Os amigos constroem um mundo em comum, tem as referências em comum. É disso que estamos a falar? Foi por isso que me prenderam?".

E volta ao ponto anterior. Carlos Santos Silva é apenas um "amigo", "um homem sério e honesto", que se ofereceu para o ajudar numa altura em que pensou em penhorar o seu apartamento.

A decisão de pedir dinheiro em numerário foi uma sugestão do engenheiro Carlos Santos Silva. Isso foi uma decisão do meu amigo e minha e por razões que se explicam muito bem. Isto não foi para ocultar nada a ninguém. Eu sempre pensei que esses empréstimos iam durar pouco. As quantias emprestadas eram muito modestas, tirando uma vez ou outra (cinco mil ou seis mil). Santos Silva entregavam-me esse dinheiro, que era dinheiro dele. Ele disse que era melhor em numerário e eu aceitei. O meu amigo, empresário há 20 e tal anos, tem uma vida empresarial e então agora o Ministério Público pretende convencer que o Santos Silva não tinha dinheiro nenhum e o dinheiro era meu.".

Garantindo que "a acusação só releva o que lhe interessa", Sócrates diz que "não vem ao caso para a acusação" que ele seja "a única pessoa no mundo acusada de ter uma fortuna de 30 milhões de euros e que tinha três empréstimos na CGD".

"O Ministério Público está a mentir"

A entrevista incidiu sobre a titularidade do dinheiro e os três de crimes de corrupção passiva para ato ilícito. Sócrates é acusado de ter sido corrompido por Ricardo Salgado para proteger os interesses do Grupo Espírito Santo na Portugal Telecom, por ter tido um "papel de destaque" da Parque Escolar, programa de modernização das escolas do ensino secundário lançado pelo Governo de José Sócrates, na faturação da construtora Abrantina, sociedade adquirida pelo Grupo Lena.

O Ministério Público diz que «entre 1 de março e 18 de abril de 2006, o arguido José Sócrates colocou o Governo aos interesses do GES». Isto é uma afirmação gravissíma e a primeira pergunta é: onde é que está a prova disso?”

Para cada alegação, Sócrates deu uma resposta. E sobre Ricardo Salgado garantiu que nunca se encontrou ele antes de 13 de outubro de 2006 e noutro sítio do que o seu gabinete.

Ora, eles dizem aqui que eu fiz um acordo entre o 1 de março e de 18 de abril de 2016. E como é que eu sei isto? Porque fui ver o registo de entradas na residência oficial do primeiro-ministro. Eu recebi-o, a seu pedido o meu gabinete, no dia 13 de outubro de 2016. Foi a primeira vez que falei com ele. Nunca falei com ele "noutros espaços" sem ser no meu espaço. Durante as minhas funções de primeiro-ministro nunca me encontrei com ele antes de 13 de outubro".

E garante mesmo que "nunca" almoçou, nem visitou a casa ou o banco com Ricardo Salgado.

Eu e o doutor Ricardo Salgado tínhamos uma relação institucional. Não faço parte do grupo de amigos de Ricardo Salgado". 

Sócrates ataca depois a acusação sobre o Vale do Lobo, dizendo que nunca falou sobre o assunto com ninguém e garantindo que não foi ele que nomeou Armando Vara para a CGD.

Nunca falei sobre Vale do Lobo com ninguém. Não conhecia os seus dirigentes nem os seus accionistas, nunca discuti isso com ninguém. O Ministério Público afirma que eu é que nomeei o Armando Vara para a CGD – mas não fui que o nomeei. O Ministério Público deveria ter ouvido o Teixeira dos Santos: “O primeiro-ministro nunca me pressionou. Armando Vara foi escolha minha. A decisão foi minha sem ouvir o engenheiro Sócrates”."

O ex-primeiro-ministro considera que todas as acusações "pretendem criminalizar o período político em que chefiou o Governo e que são mentiras que têm "tudo a ver com direita e com esquerda".

"Desta acusação, não vai sobrar folha sobre folha".

Para o principal arguido da Operação Marquês todo o processo que levou à acusação é ilegal e baseou-se numa "campanha constante de difamação promovida pelo Ministério Público". 

"Quero que todos os portugueses saibam que este processo não foi um processo justo. Este processo foi um processo excecional. O direito não foi seguido para todos".

E foi esta a última intervenção controlada de José Sócrates. Ao ser questionado pelo jornalista da RTP sobre como é que paga as despesas, o ex-primeiro-ministro indignou-se e explodiu dizendo que essa era uma pergunta que "diz muito do jornalismo português".

É uma coisa inacreditável que me pergunte isso. Talvez a resposte fosse mesmo dizer-lhe “desculpe lá o que é que o senhor tem a ver com isso"? Isso é uma pergunta de um jornalista… É uma pergunta do Correio da Manhã? Eu vivo de uma única coisa. Tive já algumas ofertas e recusei tudo porque estou nesta situação e não quero prejudicar ninguém. Vivo daquilo que é a minha pensão de deputado – acabei com a pensão de primeiro-ministro. Diz muito do jornalismo português".

Ao ser questionado se não vive com empréstimos do Carlos Santos Silva, Sócrates voltou a indignar-se e afirmou que "essa pergunta é uma afronta, indigna de um jornalista".