Quase quatro em cada 10 médicos oncologistas consideram que os seus doentes têm faltado mais às consultas nos últimos anos, segundo resultados de um estudo apresentado esta segunda-feira em Lisboa e que considera que estes dados “merecem reflexão”.

Ao todo, o estudo do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa baseou-se em questionários dirigidos a cerca de três mil médicos, divididos pelas várias especialidades, sendo que 37 deles eram oncologistas.

Na globalidade, segundo mais de metade dos médicos inquiridos, os doentes têm faltado mais a consultas, um dado que tinha sido já revelado em setembro do ano passado pelo bastonário da Ordem, José Manuel Silva, que indicava que os custos das taxas moderadoras e dos transportes motivavam estas ausências.

“Os dados merecem reflexão: pense-se nas implicações de 40% dos oncologistas inquiridos afirmarem que o absentismo dos doentes aumentou”, referem os autores do estudo.


A análise sublinha ainda que os dados sobre as faltas dos doentes às consultas não deverão estar ligados a um aumento do número de consultas no Serviço Nacional de Saúde.

“A perceção do aumento do absentismo dos doentes é mais elevada entre os médicos que afirmam não ter havido um aumento de atividade no SNS, do que para os médicos que afirmaram existir esse aumento. Assim, o absentismo dos doentes não parece ser reflexo do aumento da atividade no SNS. Não sendo possível determinar quais as razões desse comportamento, as análises realizadas sugerem dificuldades no acesso”, referem os autores.


Outra tendência revelada pelos profissionais inquiridos foi o aumento do abandono de tratamentos por parte dos doentes.

Entre os médicos do SNS são 60% os que referem que se registou um aumento desde 2011. Cerca de 80% indicam ainda que os doentes têm pedido mais vezes receitas de medicamentos mais baratos.

Na psiquiatria e na pneumologia o abandono de tratamentos é indicado por 70% dos médicos, na medicina geral e familiar por 60% e em oncologia por cerca de metade.

“Os dados demonstram uma tendência inequívoca de forte condicionalismo financeiro sentido pelos utentes do SNS, em particular no consumo de medicamentos”, refere o estudo do ISCTE, realizado no âmbito de um protocolo com a Ordem dos Médicos.


Para os médicos que participaram no estudo, entre as razões que mais afetaram a qualidade dos cuidados desde 2011 estão: aumento das taxas moderadoras, custos de transportes, falta de recursos humanos, más condições de trabalho ou falta de medicamentos disponíveis e barreiras no acesso a meios complementares de diagnóstico.