O ex-autarca Isaltino Morais, que saiu da prisão em liberdade condicional na terça-feira, admitiu, esta quarta-feira, à agência Lusa vir a escrever um livro a contar a experiência vivida ao longo dos 426 dias que passou na prisão da Carregueira.

«É uma experiência que eu acho que deve ser contada, até por motivos pedagógicos», sustentou, acrescentando apenas, sobre o processo judicial, que respeita as decisões dos tribunais.

Um dia depois de ter saído da prisão da Carregueira (Sintra), na data em que completava um ano e dois meses de prisão, o ex-presidente da Câmara de Oeiras disse que «estar em liberdade é, juntamente com a saúde física, o bem mais precioso que existe».

Condenado a dois anos de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais, Isaltino Morais vai cumprir o resto da pena em liberdade condicional, estando impedido, por decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, de se ausentar de Portugal continental até abril de 2015.

«Depois de estar privado da liberdade 14 meses, naturalmente que se tem uma dimensão diferente de pormenores da vida, de coisas que temos, que antes não aproveitávamos devidamente e agora aproveitamos de outra forma», afirmou, em declarações no Parque das Perdizes, em Oeiras.

A «solidão e o silêncio» foram apontados como os aspetos mais difíceis, que o ex-autarca procurou, contudo, transformar em «positivos».

«Os momentos em que se está sozinho numa cela, em que se olha para o exterior, tudo isso, são momentos de profunda reflexão e há que aproveitar esses momentos para usar o tempo de uma forma positiva, caminhando, fazendo exercício, lendo, escrevendo», referiu.

O ex-autarca de Oeiras disse ter escrito mais de mil cartas ao longo do tempo na prisão.

Durante os 14 meses, dividiu a cela com outros quatro reclusos e disse ter feito amigos na prisão. Incentivava os reclusos à prática de exercício físico, inclusive o antigo presidente do Benfica Vale e Azevedo, com quem fez algumas caminhadas.

«Os presos, em princípio, são tratados todos de forma igual, mas não são todos iguais e o que é importante é a inteligência emocional de cada um, lidar com pessoas, procurar compreendê-las e eu estava sempre disponível para ouvir. Se as pessoas me pediam conselhos ou ajuda para escrever qualquer coisa, eu estava sempre à disposição. Foi fácil para mim essa integração. Ainda não estou bem em mim, mas considero que fiz amigos na prisão. Essa é que é a realidade», disse.

Além de escrever, Isaltino Morais via todos os dias atentamente as notícias do país e considera que «não evoluiu nada».

«Mantém-se tudo na mesma. Julgo que um dos grandes problemas do nosso país é a ausência de projetos», disse.

Isaltino Morais ainda não tem nada definido para o futuro, mas prometeu continuar presente: «Ainda não sei o que vou fazer, agora quero descansar o meu espírito, adaptá-lo. Nem falo de política, nem de Justiça, neste momento só me interessa saborear as coisas boas que a liberdade nos proporciona e as pessoas podem continuar a ver-me, vou continuar a fazer os meus passeios e a cumprimentar as pessoas aqui em Oeiras».