Portugal é dos únicos países da Europa que não aproveita o plasma seguro dos seus dadores benévolos, anónimos e voluntários. A maior parte do palsma dos nossos dadores acaba no lixo e depois o país gasta milhões a comprar plasma de dadores estrangeiros à Octapharma.

Quem ganha é a indústria farmacêutica; quem perde são os doentes, os dadores e o país.

Neste negócio de milhões, o país gasta dinheiro a comprar, desperdiça o plasma doado, que é um bem escasso e muito valorizado, e ainda gasta para destruir esse plasma, pagando milhares de euros a empresas de resíduos hospitalares para o fazer.

Quem ganha com este negócio? Por que é que há mais de 20 anos que Portugal não consegue aproveitar o plasma dos seus dadores? Por que é que os vários políticos não defendem aquilo que é o interesse nacional e aproveitam o plasma dos nossos 500 mil dadores benévolos? De quem ou de que interesse está o país “refém” para não conseguir fazer o mesmo que todos os outros países da Europa? 

(Clique na imagem para ver a segunda parte da reportagem)
 

Plasma vale mais do que petróleo

Quando você dá sangue, também está a dar plasma. Um saco de sangue centrifugado divide-se em três substâncias: eritrócitos, plaquetas e plasma. Os dois primeiros são aproveitados pelo serviço nacional de saúde, mas o plasma é destruído.

O plasma é uma sopa de proteínas de cor amarela que pode salvar vidas e que vale muito dinheiro. Para se ter uma ideia, o plasma tem cotação internacional e um litro de plasma pode valer 120 euros no estrangeiro, mais do que vale um barril de petróleo.

O plasma é uma substância escassa que não pode ser produzida artificialmente em laboratório. Só se consegue plasma através de sangue de dadores. Mas, se em Portugal há dadores benévolos, a maioria das empresas do sector paga 50 euros nos Estados Unidos da América para que as pessoas vendam um pouco do seu plasma. Essa matéria-prima pode ser inativada e vendida para ser diretamente dada ao doente, ou fraccionada e transformada em medicamentos, dos quais dependem vidas de muitos doentes como, por exemplo, os hemofilicos (factor VIII e IX), os queimados (albumina) e as pessoas infetadas com VIH sida ou com cancro (imunoglobulina).

Estas são apenas algumas das proteínas que se podem retirar do plasma humano e que são vendidas a peso de ouro no mercado nacional. Portugal chegou a gastar 70 milhões em hemoderivados. De facto, se aproveitasse o plasma dos seus 500 mil dadores benévolos para fazer estes medicamentos, teria poupado milhões de euros nos últimos anos.

Vários governos tentaram fazer esse aproveitamento, mas nunca conseguiram e, desta forma, a indústria farmacêutica continuou a vender plasma estrangeiro e a ganhar milhões.

A verdade é que Portugal não pode vender o seu plasma, mas pode comprar plasma estrangeiros de dadores pagos. O Hospital de S. João (HSJ) começou este ano a aproveitar 25 mil unidades de plasma dos seus dadores. Lançou um concurso público internacional a que só uma empresa farmacêutica concorreu: a Octapharma.



                                             (Clique na imagem para entender estas relações)

Hoje a Octapharma mistura o plasma dos dadores do HSJ com o plasma dos seus dadores pagos e, por isso, pode estar em causa uma ilegalidade com a venda de hemoderivados que detenham na sua composição plasma português. O Secretário de Estado já garantiu à TVI que vai mandar investigar a situação.

A verdade é que, ao longo os anos, há concursos anulados, concursos não adjudicados e até concursos internacionais só com um concorrente. Denúncias que a TVI faz contra tudo e contra todos os interesses instalados. ( ver artigo de opinião -  O negócio do plasma: cobardes e corajosos)

A única coisa que pedimos é que, depois de verem estas denúncias, os dadores não penalizem quem não tem culpa. Os doentes não podem pagar pelos erros que não cometeram. Por isso, pedimos a todos os dadores que continuem a dar sangue porque salva mesmo vidas e os doentes precisam de nós. Obrigada.