O jornalista Oscar Mascarenhas morreu esta quarta-feira, aos 65 anos, vítima de ataque cardíaco. A notícia é avançada pelo “Diário de Notícias” (DN), onde Oscar Mascarenhas foi jornalista e Provedor do Leitor.

O jornalista sentiu-se mal esta quarta-feira de manhã, ainda foi assistido por uma equipa do INEM, mas não resistiu.

Oscar Mascarenhas nasceu a 9 de dezembro de 1949, em Goa, na Índia, estudou Direito na Universidade de Lisboa e Jornalismo no ISCTE. Começou a carreira em 1975 no extinto jornal “A Capital” e passou pelo “Página Um”, pelo “Jornal do Fundão”, pela “Agência Lusa” e pelo DN.

Foi no “Diário de Notícias” que passou a maior parte dos seus 40 anos de carreira. Foi jornalista do DN entre 1982 e 2002. Regressou em 2012 como Provedor do Leitor, cujo mandato terminou em final de 2014.

Dizia do jornalismo que era “a profissão mais bela e apaixonante do mundo”. Na última crónica que assinou como Provedor, no final do ano passado, escrevia que não entendia o "jornalismo como um poder mas como um serviço".

Oscar Mascarenhas foi ainda professor na Escola Superior de Comunicação Social e formador no Centro Protocolar de Formação Profissional de Jornalistas (CENJOR). Foi ainda presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas. 

Como jornalista, relatou momentos históricos, como a cerimónia da independência da Cabo Verde, em 1975, os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, ou ainda as primeiras eleições livres na RDA, em 1990, após a queda do Muro de Berlim.

Em 1985, o Clube Português de Imprensa distinguiu-o como o Premio Reportagem, e, um ano depois, o Premio de Viagem.


Sindicato dos Jornalistas destaca "forte personalidade" 

A presidente do Sindicato dos Jornalista já reagiu à morte do jornalista, destacando  a “forte personalidade” de Oscar Mascarenhas e que irá “fazer falta o espírito crítico” ao jornalismo português.

Em declarações à agência Lusa, Sofia Branco disse ter sido "com surpresa” que recebeu a notícia da morte de Oscar Mascarenhas, adiantando que, na terça-feira, estiveram a trocar emails para uma posição conjunta entre a direção do Sindicato de Jornalistas e o Conselho Deontológico sobre a lei da cobertura das eleições.

“O Oscar participou imenso e contribuiu muito para o texto que hoje vai ser publicado, como era aliás da sua natureza. Participava imenso nas coisas em que se metia, de uma forma muito vincada, tinha um feitio muito particular, uma personalidade muito forte, não deixava de lado as suas ideias por nada, batia-se por elas até ao fim.”


A presidente do Sindicato lembrou ainda que, apesar de não partilhar das mesmas ideias e opiniões de Oscar Mascarenhas, gostava da forma como este encarava o jornalismo e considerou que vai fazer falta alguém com “aquele tipo de espirito, numa altura em que é tudo muito mais neutro, muito mais do mesmo”.

“Acho que era uma pessoa que gostava muito de discussão e isso é interessante nos dias de hoje, porque se discute muito pouco, e provocava, e isso também é preciso e faz falta.”


Sofia Branco lembrou ainda que o estilo provocador de Oscar Mascarenhas, sublinhando que tal característica “tornava-o numa personalidade que vai fazer falta”.

“Era muito crítico do jornalismo que se faz. Aliás, como provedor [do leitor, do Diário de Notícias], são conhecidos vários textos que geraram alguma polémica, mas acho que é interessante, concordando ou não com ele.”


"O jornalismo ficou mais pobre"


O comentador político Luís Delgado também lamentou a morte do jornalista, considerando que o “jornalismo ficou mais pobre”.

“O jornalismo fica verdadeiramente mais pobre sem Oscar Mascarenhas. Ele era um pilar do ponto de vista do funcionamento íntegro do jornalismo em Portugal e era uma referência. Fica mesmo mais pobre, não é uma frase feita.”


Luís Delgado relatou à Lusa que conheceu Oscar Mascarenhas “há muitos anos”, tendo inclusive trabalhado com ele no "Diário de Notícias", local onde se conheceram.

“Conheci-o no DN. Sempre o considerei um jornalista excecional do ponto de vista de capacidade, do interessa e do empenho na profissão.”


Na opinião do jornalista Luís Delgado, Oscar Mascarenhas era “extraordinariamente ético do ponto de vista da separação muito vincada daquilo que são os poderes e os direitos e as capacidades” dos jornalistas.

Luís Delgado recordou à Lusa que durante os anos em que trabalharam juntos recorreu muitas vezes à ajuda de Oscar Mascarenhas.

“Era muito empenhado e disponível para ajudar as pessoas. Sempre que nós precisávamos de alguma coisa, se tínhamos dúvidas sobre algo recorríamos ao Oscar. Perdeu-se uma pessoa muito importante, que nos orientava.”




Um "crítico muito importante"


A jornalista Diana Andringa lembrou a “camaradagem imensa” e o “crítico muito importante”.

“Estas coisas deviam ser proibidas. Pessoas como o Oscar deviam ser proibidas de morrer, porque agora com quem vamos ter discussões o dia todo, quem é que vai levantar as questões éticas e deontológicas com o humor extremamente mordaz e de uma violência, quase assassina, mas que sabemos que é feita com uma amizade e camaradagem imensa”, questionou Diana Andringa, em declarações à agência Lusa.


A antiga presidente do Sindicato dos Jornalistas frisou ainda que, além de Oscar Mascarenhas ser um “grande camarada” como jornalista, foi também um “grande camarada e amigo” quando estava na direção do sindicato e foi presidente do Conselho Deontológico do Sindicato.

“Tivemos discussões muito vivas e interessantes. Era sempre entusiasmante para a inteligência discutir com o Oscar”, frisou Diana Andringa, lembrado que este teve um "papel extraordinário” como provedor no "Diário de Notícias".

Diana Andringa lembrou ainda o sentido de humor “absolutamente fabuloso” de Oscar Mascarenhas, além do facto de ser “uma pessoa que resmungava muito, mas que tinha um coração de oiro”.
 

"Empenhado e atento ao mundo"


O ex-presidente da agência Lusa José Manuel Barroso lamentou a morte do jornalista, considerando que este era um jornalista dedicado às questões da ética e da deontologia dos jornalistas, “empenhado e atento ao mundo”.

“Era um jornalista que vivia muito a profissão no que diz respeito às questões de ética e deontologia dos jornalistas. Tinha uma grande atividade em torno dessas matérias, participando em inúmeras conferências e debates sobre o jornalismo”, relatou à Lusa José Manuel Barroso, que trabalhou com Oscar Mascarenhas no "Diário de Notícias" e na agência Lusa.

De acordo com o antigo presidente do Conselho de Administração da Lusa, Oscar Mascarenhas teve um percurso que o levou a aproximar-se cada vez mais da essência do jornalismo.

“Era muito preocupado com o modo como os jornalistas desempenhavam a profissão. Era também muito interessado pelas questões políticas internacionais (…). Tinha uma visão muito própria das coisas e dos acontecimentos e, por esse prisma, foi sempre um jornalista empenhado e atento ao mundo.”


Também o secretário-geral do PS, António Costa, transmitiu as condolências em seu nome e do partido pela morte de Óscar Mascarenhas, que refere ter sido um jornalista considerado e respeitado ao longo das últimas décadas.

"Em meu nome pessoal e em nome do Partido Socialista manifesto as mais sentidas condolências pelo falecimento de Óscar Mascarenhas, um grande jornalista que todos nos habituámos a considerar e respeitar ao longo das últimas décadas”, lê-se numa nota publicada na página da internet do partido e assinada por António Costa.

O funeral do jornalista Óscar Mascarenhas realiza-se na sexta-feira de manhã na Igreja de S. João de Deus, na Praça de Londres, em Lisboa, sendo o corpo posteriormente cremado no cemitério do Alto de S. João.

Segundo disse à Lusa fonte familiar, o velório de Óscar Mascarenhas, que morreu aos 65 anos vítima de ataque cardíaco, realiza-se a partir das 15:00 de quinta-feira numa das capelas da Igreja de S. João de Deus e, no dia seguinte, pelas 11:00, realiza-se o funeral no mesmo local.