Sem exames médicos, o lar da Obra Social da IURD desacredita a mãe biológica de Luís, Vera e Fábio. No relatório fica claro que “Maria”, nome fictício, era seropositiva e toxicodependente e que as crianças viviam num casa sem condições, onde ficavam sozinhos.

Mas não era verdade: mais pessoas moravam naquela casa e, quando a mãe ia trabalhar, as crianças ficavam ao cuidado dos restantes familiares.

Nem “Maria” era seropositiva. O Lar chega a dizer que as crianças também eram seropositivas e que “negativaram”, o que é medicamente impossível. Nem “Maria”, nem os filhos tinham o vírus HIV.

Da Segurança Social, garantiram à mãe que as crianças voltariam para casa, em pouco tempo. Pelo contrário, dali só iriam para a família Macedo, em meia dúzia de meses.

“Maria” não sabia sequer que o lar era da IURD, o que só descobre na primeira visita.

Quando deixou de conseguir ver os filhos, foi duas vezes à polícia da Amadora: ninguém a levou a sério e só quando a TVI a encontrou soube dos filhos, 20 anos depois.

Os enganos chegaram ao tribunal de menores: a Santa Casa da Misericórdia decalca o relatório do lar e, mesmo antes da guarda das crianças ser dada a outra pessoa, Alice Andrade, já os filhos de “Maria” estavam a caminho do estrangeiro.

Para testemunhas nos processos são escolhidas apenas duas pessoas: a advogada e uma educadora, ambas a trabalhar no lar de crianças.

Já nos Estados Unidos, com a babysitter de Vera e Luís, começam os episódios de maus-tratos, a ponto de “Ana”, que tratava deles, ter pedido para regressar a Lisboa.

Numa gravação a que a TVI teve acesso, Alice Andrade confirma os maus-tratos:

"Ela uma vez chama-me e eu fui a casa dela. O rabo da Vera [estava] todo negro, inchado, tivemos que pôr o rabinho dela em água quente. A Viviane bateu nela com um sapato. O bispo Júlio chegava a casa todos os dias à meia noite. O menino já estava a dormir, ele pegava no cinto e batia no menino. Porque a Viviane fazia-lhe as queixas. Ele chegava e, com o menino a dormir, pumba!"

Mas as crianças ficam apenas três anos com a filha de Edir Macedo: Viviane cansa-se e quer devolvê-las ao orfanato. É nessa altura que Alice Andrade precisa de juntar as crianças, uma vez que tinha a guarda os três irmãos. Mas Fábio morava no Brasil com o bispo Romualdo.

Crianças expostas para os fiéis da IURD

Sandra Mendonça entrou com quatro anos no lar, pela mão de uma vizinha que era fiel da IURD. É ela que conta à TVI que os bispos e pastores iam lá "estudar as crianças", para depois as adotarem.

"Era-nos dito: 'Portem-se bem, que pode ser que sejam abençoados hoje..."

Também "Rita" (nome fictício), outra criança que viveu no lar, conta: 

"Os bispos e pastores iam lá. Se nos achassem engraçados, até nos levavam de fim de semana ou nas férias... Se gostassem até ficavam connosco. Houve algumas crianças adotadas, outras vieram devolvidas... Nós éramos um jardim zoológico. Iam lá e escolhiam o seu animal favorito para passar uns tempos em casa."

O lar custava cerca de 20 mil euros por mês à IURD. Por isso, era preciso justificar o dinheiro. Todos os domingos, as crianças eram expostas no altar do Cinema Império, em Lisboa, e usadas para emocionar os fiéis.