Vinte e dois anos depois, a mãe biológica de três irmãos - Vera, Luís e Fábio - e a babysitter que tratou deles reencontram-se. “Maria”, nome fictício, vai saber por “Ana” que um dos seus filhos faleceu há dois anos.

"Este meu filho foi-me tirado... Eu nunca vi este meu filho andar, eu nunca o vi dar os primeiros passos...", desabafa Maria, falando de Fábio.

"Maria" vivia na Amadora, ao lado de uma IURD, e, um dia, alguém denunciou que as crianças - de 3 anos, 2 anos e 9 meses, respetivamente - ficavam sozinhas em casa enquanto a mãe ia trabalhar. A Segurança Social retirou-lhe os filhos e enviou-os para um lar ilegal da igreja.

"Eu não estava a entregar os meus filhos a ninguém. Eu pedi às assistentes sociais: ajudem-me, metam-nos numa creche porque eu tenho trabalho, ajudem-nos para eles ficarem em segurança, mas sempre foi recusada uma ajuda."

Foi dito a "Maria" que podia ver os filhos aos fins de semana e que este seria um "processo gradual" até que os pudesse ter de volta. Em setembro de 1995, as crianças entram no lar. A mãe só os viu uma vez. Depois, desapareceram.

“Ana” trabalhava no Lar da Obra Social da Igreja Universal do Reino do Deus quando foi escolhida para tratar de três irmãos que foram levados para os Estados Unidos e ilegalmente afastados dos pais, que foram impedidos de os visitar.

O Lar da Igreja é a peça central desta série de 10 episódios que conta em exclusivo como operou em Portugal uma rede internacional de adoções ilegais.

Mas antes é preciso conhecer esta igreja e o seu líder. A IURD é uma denominação cristã, evangélica, neopentecostal e foi fundada em 1977, no Brasil.

Atualmente, tem nove milhões de fiéis, espalhados por 182 países, 320 bispos e cerca de 14 mil pastores. É liderada por Edir Macedo Bezerra, considerado o pastor mais rico e poderoso do Brasil e com um património superior a mil milhões de dólares.

Foi em 1989 que a igreja chegou a Portugal. Começou numa pequena garagem, na Estrada de Benfica, e em pouco anos conseguiu comprar o cinema Império, em Lisboa. Hoje em dia, faz mais de 30 milhões de euros por ano, em ofertas, livres de impostos.

Foi também em 1994 que fundou uma obra social, da qual fez parte o lar Universal, uma instituição ilegal, sem licenciamento da Segurança Social, que recebia crianças através de entregas diretas de fiéis, mas também de tribunais e da própria Segurança Social.

Um lar que serviu os propósitos de uma igreja cuja ideologia passa pela vasectomia de bispos e pastores.

Alfredo Paulo, ex-bispo da IURD, conta à TVI que foi obrigado a fazer uma vasectomia numa clínica clandestina. Como as filhas de Edir Macedo - Cristiane e Viviane - casaram com bispos da IURD, também não podem ter filhos. 

É aí que, num breve período da sua história, na década de 90, Edir Macedo incentivou à adoção, uma ordem que se tornou mundial.

"O bispo começou a incentivar a adoção, ao ponto de impor, no meu caso, que eu adotasse. Nem eu, nem a minha esposa queríamos adotar", conta Alfredo Paulo, que adotou Lucas Paulo, com apenas seis dias, no Brasil.

E é neste lar, em Portugal, que esta história se inicia. Uma história de mães devastadas, filhos levados para o estrangeiro, e segredos com mais de 20 anos.

Uma história que só poderia ser conhecida duas décadas depois. Quando ex-funcionários da IURD deixaram a igreja, mas guardaram documentos e provas e conseguem agora testemunhar, sem medo, como foi organizado este esquema, que envolve o líder máximo da igreja, a filha, Viviane, uma mãe e três irmãos.

Uma história que começa tragicamente com um lar e uma fotografia de três irmãos, Luís, Vera e Fábio. Uma fotografia entregue a Edir Macedo que os achou perfeitos e os escolheu para "entregar" à filha...

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